Jornal do Vinho

A louca gangorra dos preços

A crise mundial fez o valor dos grandes Bordeaux cair, mas outras garrafas de prestígio estão ainda mais caras

Marcos Pivetta/www.jornaldovinho.com.br*

18/05/2009

Krug 1928 (a primeira garrafa, à frente das outras duas): arrematada em leilão em Hong Kong por US$ 21.200 (Foto: Reprodução do catálogo da Acker Merrall & Condit)

No dia 28 de março passado, a filial asiática da loja de vinhos norte-americana Acker Merrall & Condit vendeu um raro champanhe elaborado há 80 anos, um Krug 1928, por 164.560 dólares de Hong Kong, onde ocorreu a transação. Nunca, em qualquer parte do mundo, uma garrafa de 750 mililitros da borbulhante bebida tinha alcançado uma cifra tão elevada num leilão. O valor do arremate recorde bateu na casa dos US$ 21.200, pouco mais de R$ 46 mil. “Profunda, vegetal, com um grande aroma de nozes.” Assim era a descrição do champanhe no catálogo do evento, para poucos endinheirados de olhos puxados. Segundo um despacho da agência de notícias chinesa Xinhua, os mais de mil lotes de vinho, sobretudo de rótulos famosos de Bordeaux, da Borgonha e de Champagne, saíram por US$ 4,5 milhões. Mais de 95% dos compradores eram de Hong Kong, China continental, Taiwan, Japão, Coréia do Sul, Cingapura e Indonésia. Além da Krug com oito décadas de vida, outro destaque do leilão foi um lote de 132 garrafas de La Tâche, um dos tintos feitos pelo mítico Domaine de La Romanée Conti, a propriedade mais renomada Borgonha, que reunia garrafas das safras de 1985 a 2003 e foi adquirido por US$ 240 mil. Em média, mais de US$ 1800 por garrafa.

Como se vê, mesmo em tempos de crise econômica global, quando até os milionários parecem ensaiar o corte de custos e luxos, o preço dos grandes vinhos ou daquelas garrafas históricas, como o champanhe octogenário, é de assustar. Ainda assim, a atual recessão mundial fez despencar o preço de certos rótulos cobiçados. O verbo despencar talvez seja um exagero. Os preços caíram, sim, mas não a ponto de tornar os vinhos mais badalados do planeta acessíveis à classe média. Eles apenas estão menos caros para os ricos e os poderosos. A campanha de deste ano da chamada venda en primeur (futures, em inglês) dos mais famosos vinhos de Bordeaux ajuda a ilustrar a situação.

Antes de falar dos preços atuais dos grandes Bordeaux, é preciso entender esse sistema de comercialização, muito conhecido nessa região francesa, ainda que também praticado, sem tanta badalação, em outras zonas vitivinícolas, como a Borgonha, o Vale do Rhône e o Douro, em Portugal. Todo mês de abril, cerca de seis meses após a última colheita, os produtores dos mais renomados châteaux de Bordeaux oferecem seus vinhos – que ainda estão sendo envelhecidos em barris de carvalho e só vão ser engarrafados e entregues daqui a um ano e meio – para serem degustados pelos comerciantes da bebida e pela imprensa especializada. Esses châteaux não vendem seu vinho diretamente para o consumidor final. Baseados no julgamento que os especialistas fazem de seu vinho e no interesse e poder de compra do mercado, os donos de châteaux estabelecem um preço inicial de comercialização de seu produto. Esse preço inicial é o valor que os grandes comerciantes de vinho (négociants é o termo usado pelos franceses) pagam diretamente aos châteaux para adquirir um lote do vinho, que pode incluir toda a produção da safra passada ou uma parte dela. Como esse vinho será revendido, com lucro, pelos négociants para uma vasta cadeia de outros compradores (restaurantes, importadores, lojas), o preço da bebida tende, em teoria, a subir à medida que o tempo passa e mais intermediários se colocam entre aquela cobiçada garrafa e o amante de um bom Bordeaux. Em tese, comprar vinhos en primeur seria uma boa tática. Mas, na prática, isso nem sempre se confirma …

Diante da crise econômica global, os mais renomados produtores de Bordeaux resolveram reduzir consideravelmente o valor pedido por seus vinhos no sistema en primeur. Até o dia 20 de abril, quatro das cinco propriedades de Bordeaux classificadas no nível mais alto da hierarquia oficial da região, com o status legal de premier cru classé, já haviam divulgado o preço inicial de seu vinho principal. Os valores caíram praticamente pela metade entre esses produtores, que formam a elite da elite. Uma garrafa do Château Mouton-Rothschild 2008 (propriedade que foi elevada ao nível de premier cru apenas em 1973) estava cotada a €100, cerca de R$ 300. Os châteaux Margaux, Latour e Lafite-Rothschield cobraram um pouco mais por 750 mililitros de seu fermentado de uvas: €110. Apenas o Château Haut-Brion, o menor (em termos de quantidade de garrafas produzidas) dos premiers crus classés, ainda não havia fixado o valor de seu vinho. “Isso (o preço menor) não tem nada da ver com qualidade e tem tudo a ver com o mercado mundial, que está numa situação muito ruim”, disse a baronesa Philippine de Rothschild, dona do Mouton, ao site da revista inglesa Decanter. “A medida não ajudará a crise mundial, mas mostrará que descemos à realidade – e ela dará um novo ímpeto a Bordeaux.” (ATUALIZAÇÃO: no dia 23 de abril, o preço en primeur do Haut-Brion tinto foi divulgado: €125)

Nos Estados Unidos, há quem tenha expectativa de que esses grandes vinhos de Bordeaux possam desembarcar nas prateleiras das lojas por cerca de US$ 200 no futuro. Uma visão, com certeza, bastante otimista. No Brasil, onde os preços de vinhos importados, sobretudo os mais badalados, são de fazer tremer até novo-rico russo ou chinês, é difícil prever qual será seu custo final ao consumidor. Com certeza, aqui será preciso multiplicar o preço do vinho no exterior por três, quatro ou sabe-se lá que número.

Apesar da crise econômica, que teoricamente diminuiria a quantidade de compradores potenciais de vinhos de luxo e seria aliada dos preços moderados, os descontos não são uma regra generalizada. Mesmo nesse momento de incertezas financeiras, tem gente até elevando o preço de seu vinho e, a exemplo do que ocorreu no leilão de Hong Kong, obtendo valores recordes na comercialização de tintos e brancos de fama internacional. Um desses exemplos vem da Austrália. O Grange 2004, a mais recente colheita posta à venda do vinho (tinto) australiano mais badalado, chega ao mercado em 1º de maio 10% mais cara do que a colheita anterior. Custará ao consumidor local cerca de 600 dólares australianos, algo como US$ 420 (R$ 930). Nunca o Grange, elaborado basicamente com a uva Shiraz (Syrah), saiu da vinícola já custando tanto. A justificativa da empresa Penfolds, dona do Grange, para inflar o preço do seu rótulo-ícone é simples: a colheita 2004 foi espetacular, como tinham sido a de 1990 e 1996.

Qualquer pessoa minimamente informada sabe que o preço final de um vinho pouco tem a ver com o custo de produção. Provavelmente, não são necessárias mais do que umas poucas dezenas de euros para elaborar os mais badalados e exclusivos rótulos do planeta. Além da alta qualidade, um parâmetro que, em última instância, carrega um grau razoável de subjetividade, os grandes tintos e brancos são caros por alguns motivos: têm uma história para contar, dentro ou fora do copo; são raridades, ou ao menos percebidos pelo mercado como tal; são vistos (e exibidos) por muitas pessoas como um símbolo de bom gosto, riqueza e poder.

No livro “O vinho mais caro da história: fraude e mistério no mundo dos bilionários” (Editora Jorge Zahar, R$ 39,90, 278 páginas), lançado no ano passado no Brasil, o jornalista Benjamin Wallace, conta a saga de uma garrafa de Château Lafite de 1787, que teria pertencido ao ex-presidente norte-americano Thomas Jefferson, grande apreciador da bebida, e foi arrematada num leilão por US$ 156 mil em 1985. A obra tenta demonstrar que Hardy Rodenstock, o alemão colecionador de vinhos raros que forneceu a histórica garrada para o leilão (e outras para outros leilões), é um fraudador de rótulos antigos. Rodenstock está sendo processado nos Estados Unidos, mas ainda não está provado que ele seja um picareta, embora a autenticidade de suas cobiçadas garrafas seja constantemente posta em dúvida. Pergunta indiscreta: se o alemão não for um falsário como muita gente acredita, será que o valor dos vinhos que ele passou adiante aumentará ainda mais?

*Esta matéria foi originalmente publicada na edição de maio de 2009 do Bon Vivant. A versão aqui publicada sofreu ligeiras modificações

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