Jornal do Vinho

“As pessoas não são tolas. Geração após geração, elas sabem exatamente onde é possível fazer grandes vinhos”

Diz Marc de Grazia, um dos maiores promotores do vinho italiano de alta qualidade nas últimas três décadas e também produtor de tintos na Sicília

Marcos Pivetta/www.jornaldovinho.com.br

02/09/2009
grazia

De Grazia: “A maioria das grandes áreas para vinhos já é bem conhecida, seja na França, na Itália ou na Espanha” (Foto Gladstone Campos/Realphotos)

Dono de uma empresa que representa cerca de 80 pequenos pequenos produtores de 14 regiões da Velha Bota e também vitivinicultor na Tenuta delle Terre Nere, sua vinícola nas encostas do vulcão Etna, na Sicília (cujos vinhos são vendidos no Brasil pela Mistral), Marc de Grazia foi entrevistado em maio durante evento da importadora Vinci.  Seguem os melhores momentos da conversa:

Como é exatamente o seu trabalho na Itália?

Sou uma mistura de várias coisas. Comecei como um consultor de negócios há 30 anos.  De uma maneira simples, posso dizer que o vinho era minha paixão e meu hobby. Comecei a fazer vinho quando tinha 16 anos e faço até hoje, ao lado de meu outro grande interesse, o teatro. Naquele tempo, 30 anos atrás, em nenhum lugar do mundo fora da Itália era possível beber vinho italiano realmente bom.  O vinho italiano (no exterior) era destinado a imigrantes italianos, que  eram  pobres e tinham pequenas pizzarias, com comida de baixa qualidade  e baixas expectativas.

O vinho italiano era visto como um produto de segunda categoria.

Sim, claro. Naquela época morava na Califórnia e estudava na Universidade de Berkeley. Estava sempre procurando bons vinhos italianos que eu, como estudante, tivesse dinheiro suficiente para comprar. Era muito difícil. Até que um dia alguém me disse o seguinte: “Por que você não começa a trazer vinhos italianos para a Califórnia?” E foi o que eu fiz. Meu primeiro mercado foi a Califórnia. Não era um mercado fácil. Afinal, eles produzem vinho lá. Mas, ao mesmo tempo, é um mercado com mente muito aberta, muito interessada em vinho.  Comecei a despachar vinho muito bom para lá. Mas por anos não houve muito interesse.  Então tive de manter em paralelo outros trabalhos. Até que finalmente, de repente,  as coisas começaram a acontecer.

Trabalhar com vinho era apenas uma de suas ocupações. O que mais você fazia?

Trabalhava com teatro, onde eu fazia de tudo.  Comecei de baixo. Fiz iluminação, depois mexia com trilha sonora.  Fazia cortes e edições das músicas.

Há 10 ou 15 anos, houve a moda dos supertoscanos que deu muita visibilidade e encareceu o vinho italiano. O fenômeno foi positivo ou ruim para o vinho italiano?

Essa fase já acabou. É uma parte da história, o que não quer dizer que tenha sido boa ou ruim. Pessoalmente,  vivi esse período.

Você não acha que esses vinhos eram mais super do que toscanos?

Os supertoscanos (blends de Sangiovese e uvas internacionais, como Cabernet Sauvignon e Merlot) começaram com o (Piero) Antinori. Em 1970, fez o primeiro supertoscano, o Tignanello, ainda com o antigo rótulo (de Chianti Classico Riserva vigneto Tignanello). Em 1971, colocou o nome de Tignanello e botou  no rótulo Cabernet e Sangiovese.  Depois veio tudo o mais. O grande boom veio nos anos 1980, quando comecei e todo mundo começou a fazer supertoscanos, em Montalcino, em Chianti e em Montepulcinao.  Essa fase terminou, mas foi importante, sobretudo para o Chianti Classico, cujo mercado estava totalmente deprimido. Ninguém queria comprar um Chianti Classico.

Os supertoscanos quase acabaram com o Chianti Classico, não acha?

Esse assunto é muito complexo para explicar-lo sem me estender muito. Teve a ver com a morte do antigo sistema de divisão das colheitas e a chegada de novos donos de propriedades, que eram ignorantes. Hoje o próprio Antinori, olhando para trás, diz que nunca deveria ter adicionado Cabernet ao Sangiovese.  A questão é que três quartos da Toscana foram replantados nos anos 1970, com o auxílio de subsídios governamentais e outras coisas. Mas muito dos clones (de uvas) eram ruins e o antigo sistema de colheita tinha terminado.  E as antigas famílias aristocráticas se viram em apuros. Não sabiam nada de marketing , o preço de suas propriedades estava caindo. Era um desastre.  Nesse contexto difícil, eles pensaram em  adicionar a Cabernet  à  Sangiovese,que parece ter deficiência de cor e concentração, para melhorar o vinho. Mas a questão era que se tratava de um Sangiovese vindo de clones ruins, de colheitas fartas em demasia,  e de sua mistura com uvas brancas, como a Trebbiano e a Malsavia.

O problema não era exatamente a uva, mas todo o sistema de produção

Era uma questão complexa.  Então surgiram os supertoscanos – e algumas pessoas disseram que não se importavam muito com os Chianti, pois eles iriam fazer esse novo vinho. Eles se importavam mais com suas propriedades e disseram que iram fazer esse tipo de vinho.  Eles garantiram que iriam fazer grandes vinhos, que valeriam o alto preço que eles iriam cobrar por eles. Eles realmente fizeram grandes vinhos e conseguiram vendê-los e de repente o mundo passou a prestar a atenção neles. Isso foi muito importante.  Mas o problema é que, se tomarmos como exemplo a área de Chianti ou de Brunello, você é um nome entre 250 produtores na região.  Você está dentro de uma denominação de origem, como em Bordeaux. Haverá vinhos bons e outros menos bons, mas as pessoas sabem do que se trata. Então de repente há dez, vinte, trinta pessoas bem-sucedidas fazendo supertoscanos. E então todo mundo começa a fazer supestocanos. Hoje há 500 supertoscanos, cada um com um nome diferente.  Mas aí fica impossível criar um mercado assim.  Ninguém consegue se lembrar de 500 nomes.  E um produtor adiciona Syrah,  o outro Cabernet, o outro Merlot e assim por diante.   No final, há uma perda de identidade, que, no vinho, é algo muito importante.

O que acontece hoje de mais importante no mundo do vinho na Itália?

Depois dos supertoscanos, uma fase da história que já passou, há claramente uma volta ao passado de fazer vinhos com grande identidade e pureza, respeitando as variedades de uvas que tenham uma ligação estreita com suas áreas de cultivo. Isso ocorre independentemente de essas uvas darem ou não vinhos realmente importantes. Esses vinhos podem não ser grandes, mas certamente são cheios de caráter e interessantes. E nós os associamos a um lugar, a uma cultura, a uma comida. Eu, por exemplo, faço vinhos perto do Etna, na Sicília. Reconheci o potencial dessa área, que historicamente é uma das cinco ou seis melhores da Europa para vinhos de qualidade. É uma Borgonha do Mediterrâneo. Dá vinhos muito complexos e elegantes (os tintos são elaborados basicamente com a uva Nerello Mascalese). E há outras regiões menores produzindo vinhos maravilhosos na Itália.

Você trabalha com produtores de toda a Itália?

Sim, com produtores desde a região dos Alpes até quase a Tunísia.

Quais as áreas mais promissores hoje na Itália?

As grandes áreas clássicas. Por muito tempo, elas estiveram esquecidas. Quando comecei a vender Barolo, em 1980, durante uns dez anos ninguém o queria. Ninguém. Hoje há um grande mercado para esse vinho. Ninguém queria Soave, outro clássico. Na minha opinião, o Soave é talvez o melhor vinho branco da Itália. A região foi redescoberta e hoje há bons produtores que engarrafam seu próprio vinho. O mesmo aconteceu com (as DOCs) Orvieto e Verdicchio. Essas áreas foram mortas pelas grandes indústrias e cooperativas e hoje estão numa fase de renascença.

Qual é sua avaliação dos vinhos do sul da Itália em geral?

Algumas áreas estão indo bem, como a Sicília, que produz tanto vinho anualmente quanto a Austrália. Outras áreas não vão tão bem, como a Puglia e a Calábria. A Puglia, que é enorme (em termos de vinhedos), tem potencial para produzir vinhos muito bons, mas da gama média de uma vinícola.

A Sicília é capaz de produzir vinhos para todas as faixas de mercado, dos mais simples, passando pelos de nível médio, até os verdadeiramente grandes?

Grande é uma palavra muito forte. A maioria das pessoas, nos últimos dez anos, não entendeu direito o que é um grande vinho. Muitas pensaram que um grande vinho era um vinho com grande corpo e concentração. E a Sicília pode fazer vinhos de muito corpo. A Austrália também. Na verdade, em qualquer lugar é possível fazer esse tipo de vinho. É muito fácil fazer vinhos de grande corpo, mas muito difícil fazer grandes vinhos, que só podem ser elaborados em lugares muito específicos.  As áreas clássicas, como o Vêneto, o Piemonte e a Toscana, ainda são as regiões onde, se o produtor quiser, é possível fazer grandes vinhos. A Europa é muito velha. Nos últimos 3 mil anos, provavelmente só houve 15 anos de paz total. Houve guerras, problemas políticos, econômicos, de saúde pública e de todo tipo. Nesse contexto, áreas historicamente importantes para vinhos acabaram sendo esquecidas e destruídas. Algumas estão sendo redescobertas e são capazes de dar grandes vinhos. Outras são redescobertas, dão vinhos interessantes, mas que não chegam a ser grandes. A maioria das grandes áreas para vinhos já é bem conhecida, seja na França, na Itália ou na Espanha.  As pessoas não são tolas. Geração após geração, elas sabem exatamente onde é possível fazer grandes vinhos.

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