Jornal do Vinho

Borbulhas em alta

A crise econômica faz o champanhe perder um pouco de seu gás neste fim de ano, mas a história mostra que a indústria dos espumantes nunca esteve em maior ebulição

Marcos Pivetta/www.jornaldovinho.com.br*

23/12/2008

As vendas de champanhe devem cair 10% em 2008, mas no ano passado foram comercializadas quase 339 milhões de garrafas da bebida, um recorde histórico para o setor (Foto: Wikimedia Commons)

À primeira vista, os produtores de champanhe não têm motivos para comemorar o final de 2008. Neste ano, devido à grave crise econômico-financeira que começou em setembro nos Estados Unidos e se espalhou rapidamente para outras parte do globo, as vendas totais do mais famoso espumante do mundo devem cair em cerca de 10%, segundo estimativas do Comité Interprofessionnel du vin de Champagne (CIVC), a entidade que representa os interesses do setor. A previsão é de que, até o último dia de 2008, deverão ser comercializadas 34 milhões de garrafas a menos de champanhe do que no ano passado. Na França e na Inglaterra, os supermercados estão dando descontos e já vendem algumas marcas mais populares de champanhe a pouco mais de 10 euros. As perspectivas são sombrias para os produtores do mais imitado e admirado espumante do mundo, certo? Nada disso.

Desde que, na segunda metade do século XVII, a região de Champagne, a zona de produção de uvas viníferas mais ao norte da França, a cerca de 150 quilômetros a leste de Paris, passou a manter em seu vinho as borbulhas de gás carbônico (C02), a situação nunca foi melhor em Reims e Épernay, as duas cidades que se intitulam as capitais do champanhe. É certo que haverá dificuldades nos próximos meses, talvez durante anos, de acordo com a extensão da crise na economia mundial, mas o sucesso comercial do champanhe foi tão estrondoso nas últimas décadas que o futuro desse tipo de vinho parece mais do que assegurado a médio e longo prazo. E, se forem competentes na elaboração e no marketing de seus produtos, outras regiões e países produtores de espumantes poderão pegar carona no sucesso do champanhe. Aliás, como já o estão fazendo.

Muitos números atestam o êxito do champanhe nas últimas décadas. Em 20 anos, a produção total da região dobrou. Era de cerca de 150 milhões de garrafas em 1980 e passou a aproximadamente 300 milhões no ano 2000. As coisas iam tão bem que o recorde histórico em termos de vendas de champanhe foi recentemente estabelecido: foram comercializadas, segundo dados do CIVC, 338,7 milhões de garrafas da bebida em 2007, tendo os próprios franceses consumido pouco mais da metade desse total. Além de manter uma ótima clientela no mercado interno, o champanhe se tornou uma bebida cada vez desejada no exterior. “Nas últimas duas décadas, os pedidos de champanhe aumentaram em média 2,2% ao ano”, escreveu o semanário inglês The Economist em sua edição de 4 de dezembro deste ano. “Recentemente, alguns mercados cresceram ainda mais rápido: o consumo nos Estados Unidos subiu 3.5% ao ano, na Grã-Bretanha aumentou 4.2% e no Japão cresceu efervescentes 18.1% entre 2002 e 2007.”

A procura por champanhe foi tão grande nos últimos tempos que os produtores foram aumentando a área de vinhedos plantados com as três únicas uvas autorizadas a compor o blend da bebida – a branca Chardonnay e as tintas Pinot Noir e Pinot Meunier – até o limite permitido pela lei de 1927 que rege a AOC de Champagne, a região oficialmente delimitada em que se pode produzir a bebida. Hoje há cerca de 34 mil hectares de vinhas cultivadas na região – em 1912 havia apenas 12 mil hectares plantados e, em 1980, esse número batia na casa dos 24 mil hectares – e não há mais terra onde se pode plantar mais uvas para champanhe. A saída, claro, foi alterar a lei. Em março deste ano, foi anunciada, de forma ainda preliminar, a expansão da zona produtora. Mais 40 comunas devem ser adicionadas às 319 da região de Champagne autorizadas a elaborar o cobiçado espumante. E comenta-se que duas comunas que hoje fazem parte da região produtora perderão esse status. As primeiras decisões definitivas sobre a questão deverão se tornar públicas no primeiro trimestre de 2009, mas o redesenho da área produtiva deverá se prolongar por anos. Só então se saberá quantos milhares de hectares a mais serão incorporados à AOC. O efeito do aumento da área delimitada demorará um pouco a ser sentido. O champanhe dessas novas comunas produtoras deverá chegar ao mercado lá por 2020.

As grandes casas produtoras de champanhe, que compram dos viticultores o grosso das uvas de que necessitam para moldar seus rótulos, apóiam a expansão da zona produtora. Dizem que o preço das uvas chegou a patamares irreais (mais de 5 euros o quilo da fruta), o que pode provocar no futuro a falta de champanhe ou encarecê-lo demais, sobretudo para os crescentes mercados no exterior (Ásia em especial) ávidos por consumir esse tipo de vinho. Clovis Taittinger, diretor adjunto de exportação do Champagne Taittinger, que esteve em São Paulo em novembro para divulgar seus rótulos, explicou a posição da empresa sobre a questão. “O champanhe é um produto de luxo, mas acessível, pelo qual as pessoas podem pagar. Se não fizemos a expansão, vamos destruir a região de Champagne daqui a 20 anos. O champanhe ficará muito caro”, disse Clovis, que não parecia muito assustado com o impacto da atual crise econômica sobre a venda de seu produto. O executivo afirmou que a expansão da área produtora de uvas é um acerto de contas com o passado. Afinal, lembrou, antes da Primeira Guerra Mundial os vinhedos em Champagne ultrapassavam os 70 mil hectares. Desde então, muita gente deixou de praticar a viticultura naquela parte da França. “Vamos expandir os vinhedos entre 5 mil e 8 mil hectares. Esse é o sentido da história. A expansão é como promover a reunificação da Alemanha”, comentou Clovis, cuja empresa elabora anualmente 5,5 milhões de garrafas de champanhe.

O movimento de expansão da área autorizada de vinhedos na AOC Champagne será marcado por tensões e brigas jurídicas, acreditam alguns especialistas do setor. Em tese, bastaria levantar as condições climáticas e de solo das comunas candidatas a entrar na zona produtora e averiguar se elas, em algum momento do passado, foram fornecedoras de uvas para a elaboração de champanhe. Dessa forma, tudo seria decidido tecnicamente. Mas, na prática, o processo de seleção é muito mais intrincado. E o motivo é simples: envolve muito dinheiro. Num texto detalhado e bem-humorado publicado em julho deste ano em seu site, o jornalista inglês Andrew Jefford, autor de livros sobre vinhos, sobretudo os da França, exemplifica os interesses monetários em torno da questão. Diz que um hectare de terra comum para agricultura em geral na região de Champagne custa entre 5 mil e 15 mil euros, enquanto o preço médio de um hectare de vinhedo no ano passado chegou a 737 mil euros. “Um salto de cinqüenta vezes”, escreveu Jefford, no artigo “Tudo o que você sempre quis saber sobre as revisões da área de Champagne, mas tinha medo de perguntar”. Ou seja, será uma benção financeira para os agricultores donos de terra comum ter o status de seu pedaço de chão elevado a zona produtora de uvas para o champanhe. Mas quem não conseguir tal regalia se sentirá provavelmente lesado.

Indiferente a muitas das discussões técnicas e políticas do setor produtivo, o consumidor moderno bebe cada vez mais espumante, vinho que todos associam a festas e comemorações. Se não tem dinheiro para um champanhe, opta por outros tipos de espumantes, em geral bem mais em conta. Por isso, pode-se dizer que o grande sucesso do champanhe nas últimas décadas também impulsionou as vendas de outros espumantes. Talvez o caso mais espetacular tenha sido o do cava, o espumante espanhol “inventado” no final do século XIX seguindo os moldes de produção do champanhe (com a segunda fermentação na própria garrafa), ainda que elaborado fundamentalmente com uvas locais. Nas últimas três décadas, a produção de cavas, que se concentra basicamente na Catalunha, quase triplicou, segundo dados oficiais do Consejo Regulador del Cava. Em 1980, foram elaboradas 82 milhões de garrafas. Em 2007, o número saltou para 224 milhões.

O mesmo se passou com o Prosecco, o espumante italiano do Vêneto que virou moda no Brasil há alguns anos. Em 2003, foram produzidos 39,5 milhões de garrafas dentro da área delimitada da DOC (Denominazione di Origine Controllata) Prosecco di Conegliano-Valdobbiadene. Em 2007, o número pulou para 57,3 milhões de garrafas. Um aumento de produção de quase 50% em apenas cinco anos, de acordo com dados oficiais do Consorzio per la Tutela del vino Prosecco di Conegliano-Valdobbiadene. Isso sem falar nas mais de 100 milhões de garrafas de Prosecco IGT (Indicazione Geografica Tipica), elaboradas fora da zona demarcada. A crise econômica atual deve fazer a produção de champanhe e espumantes perder momentaneamente o gás. Mas, a longo prazo, esse filão deverá continuar em ebulição.

O mercado dos espumantes
Mais de 50 países elaboram vinhos com borbulhas, mas a França ainda é o maior produtor do setor

As poucas estimativas globais disponíveis apontam para uma produção anual de cerca de 2,1 bilhões de garrafas de espumantes. Mais de 50 países elaboram algum tipo de espumante, setor que cresce a um ritmo mais acelerado do que o de vinhos tranqüilos, não-espumantes. Cerca de três quartos da produção total saem dos seis maiores produtores, respectivamente França (25% do mercado), Alemanha, Espanha, Itália, Rússia e Estados Unidos. Publicados originalmente no periódico francês Revue des Oenologues em abril de 2003, esses dados podem estar um pouco defasados, mas ainda servem para exemplificar a conjugação de forças nesse segmento.

Abaixo uma breve descrição das principais características de três dos mais importantes espumantes importados presentes no mercado brasileiro:

DO Cava

AOC Champagne

DOCG Asti

DOC Prosecco

*Esta matéria foi originalmente publicada na edição de dezembro de 2008 do jornal Bon Vivant

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