Jornal do Vinho

Desejos tardios para 2010

Frases que espero ouvir com menor frequência no resto do ano

Marcos Pivetta/www.jornaldovinho.com.br

09/02/2010

Já estamos no segundo mês de 2010, mas ainda está em tempo de fazer alguns pedidos para o já não tão novo ano assim.  Seguem seis frases que espero ouvir  com menos frequência em 2010. No íntimo, tenho poucas esperanças de que meus pedidos sejam atendidos. Mas não custa tentar.

“Vinho brasileiro não presta.” Essa frase já foi mais recorrente, mas, de vez em quando, ela retorna com força. Em geral, é dita por gente que não prova vinho nacional quase nunca e se prende a uma imagem que era verdadeira no passado mais distante. Não tenho nenhuma procuração para defender o vinho nacional, mas é forçoso admitir: ele melhorou sensivelmente nos últimos dez anos.  Hoje há ao menos duas dezenas de produtores nacionais que fazem ao menos um vinho ou espumante de qualidade. Mas é certo que o preço do vinho nacional é, em geral, pouco competitivo, com exceção dos espumantes.

“Um bom vinho de R$ 60 para o dia a dia.” Que mercado fabuloso deve esse dos tupiniquins! O Brasil deve ser o único lugar do mundo em que os críticos recomendam vinhos para o dia a dia que custam  32 dólares (ou 23 euros, para quem prefere a moeda europeia).  Nem na rica Suíça as pessoas gastam essa quantia em vinhos para consumo diário. Ok, aqui tudo é muito mais caro do que mundo desenvolvido, mas também não vamos exagerar. Vamos ser menos elitistas e cair na real. Vinho para o dia a dia deve ficar na casa dos 10, 20, no máximo 30 reais. E olha que isso não é pouco dinheiro para 750 ml de suco de uva fermentando.

“O Brasil é o segundo melhor lugar do mundo para fazer espumante.” Vamos com calma. Deixar o complexo de vira-lata para trás é salutar,  mas sem embarcar no ufanismo e na soberba.  Dúvido que qualquer especialista internacional em vinhos leve a sério uma afirmação dessas. É o tipo de frase vazia que, em vez de ajudar, prejudica o setor. O Brasil tem, sim,  potencial para fazer bons espumantes e alguns produtores já estão no bom caminho.  Mas ele NÃO é o segundo melhor lugar do mundo para fazer espumante depois da região de Champagne. Tomara que um dia o seja. Mas antes vai ter de deixar para trás uma lista enorme de concorrentes. Quase todos os países  que fazem vinho, sobretudo os da Europa,  também produzem bons espumantes. E a produção de espumantes no Brasil (foram comercializadas cerca de 11 milhões de garrafas em 2009) é um nada em termos de volume e prestígio perto do que se elabora na França, Itália ou Espanha.

“Como você pode tomar vinhos do Chile e da Argentina, padronizados, cheios de álcool e carvalho ruim?” Sim, eu tomo vinhos do Chile e da Argentina. Eu e a maioria dos brasileiros. Na verdade, eu nunca ouvi essa frase da boca de ninguém. Mas, creio eu, o seu espírito já rondou inúmeras conversas que tive com produtores da Europa, sobretudo franceses, e do Brasil. Noto frequentemente o tom de desprezo com que certos produtores falam dos vinhos elaborados por nossos hermanos.  Deitados eternamente em berço esplêndido, alguns franceses que não perceberam que o mundo (e não apenas eles) aprendeu a fazer vinho, acham que o Chile e a Argentina só fazem vinhos medíocres. Isso pode ter sido verdade no passado. Hoje não mais.  Já certos produtores nacionais me olham com cara de traídor da pátria quando faço algum elogio ao Chile ou à Argentina.

“Esse vinho expressa o terroir da região.” Esse pedido é um exagero, eu sei.  Mas, se você, caro leitor, está mais ou menos familiarizado com o mundo do vinho, já deve ter cansado de ouvir frase similar. É quase um  mantra dos produtores.  A palavra terroir ―  um conceito complexo que, grosso modo, defende a ideia de que um (bom) vinho deve expressar as características do clima, do solo e da cultura vitivinícola de uma região ―  virou uma ferramenta banal do marketing. Foi vulgarizada. Hoje todo mundo diz que faz vinho de terroir. Nunca ouvi alguém dizer o contrário. Não me entendam mal. Adoro vinhos de terroir ― desde que eles sejam bons. Caso contrário, podem mandar um “industrializado” Casillero del Diablo mesmo.

“Você é enólogo?” Uma pergunta irritante que ouço de vez em quando. Não! Não sou enólogo. Quem faz vinho é enólogo. Como nunca transformei suco de uva em fermentado de uva, não sou enólogo. Também não gosto de ser chamado de enófilo (pessoa que gosta de vinho), uma palavra horrível. Mas isso é outra história.  Sou jornalista e ponto final.

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