Jornal do Vinho

Rótulos que contam a história do Porto

Livro narra a trajetória da bebida por meio de suas etiquetas

Marcos Pivetta/www.jornaldovinho.com.br*

09/12/2006

Quase toda semana chega à casa de Carlos Cabral, em São Paulo, consultor de vinhos dos supermercados Pão de Açúcar, um envelope do correio com um conteúdo inusitado: rótulos de vinho do Porto, enviados por algum produtor amigo ou um conhecido. Essas etiquetas se somam às estampas que o enófilo colhe em suas constantes viagens a Portugal e enriquecem seu acervo particular, a Coleção Soromenho, de cerca de 7 500 rótulos da bebida que é sua paixão há três décadas e meia. Uma pequena parte dessa vasta compilação de imagens que um dia adornaram garrafas do fortificado português destinadas aos mais variados mercados, da China ao Brasil, ganhou as páginas do livro Porto, Um Vinho e sua imagem (Editora de Cultura, 188 páginas, R$ 120), lançado em setembro. “Esses rótulos tinham de ser mostrados ao público”, diz Cabral, de 59 anos, um dos maiores especialistas nos tintos (e brancos) licorosos do Douro, sendo o único brasileiro a ostentar o título de Infanção da Confraria do Vinho do Porto, sediada na cidade do Porto. “E lançar o livro era uma forma de o Brasil participar das comemorações de 250 anos pela demarcação oficial da região de produção do Porto.

Com o auxílio das etiquetas, a obra se propõe a contar a rica trajetória do mais famoso fortificado luso, desde o século XVII, quando surgiu, até os dias atuais. “Antes de ser vinho, o Porto é história”, diz Cabral, que se encantou pela bebida quando provou, aos 19 anos, um Dom José, da Real Companhia Velha. Na obra, o enófilo destaca os rótulos que foram feitos para o mercado brasileiro e que tratavam o Porto como remédio. Fala, por exemplo, de casas produtoras como a Adriano Ramos Pinto, talvez a marca mais conhecida de Porto no Brasil, que mandava para cá garrafas estampadas com assinatura de seu proprietário (para evitar as falsificações) e com os dizeres de “tônico nutritivo”. No mundo da publicidade, o Porto podia curar quase tudo, até “unha encravada”, como diz, em tom de brincadeira, Cabral, dono de 400 livros sobre vinho do Porto. A associação medicinal do vinho licoroso fez escola e deixou filhotes em terras nacionais, como o popular Biotônico Fontoura, um fortificante criado na década de 1910 para matar vermes e assim batizado por sugestão do escritor Monteiro Lobato. O Biotônico, tão associado à figura do Jeca Tatu, tinha álcool em sua composição.

Cabral conta que o Porto foi um dos primeiros vinhos a produzir rótulos personalizados para cada um de seus principais mercados. A fim de atender os anseios específicos de seus compradores, os fabricantes chegavam a confeccionar etiquetas sob medida. Esse era o caso de um Porto chamado Iolanda – o emprego de nomes femininos, homenageando mães e filhas (às vezes, as amantes), era também um expediente comum nos rótulos da bebida – e destinado para um importador de Guarantiguetá, no interior paulista. Se depender da vontade de Cabral, a história do vinho licoroso português, pelo menos em sua família, vai se estender às novas gerações. Hoje avô, o enófilo, dono de uma adega de 120 garrafas especiais de Porto (como um exemplar de 1892), se dedica a comprar Vintages (Portos safrados) que seus dois netos, nascidos já no século 21, só vão tomar quando fizerem 21 anos.

*Esta matéria foi originalmente publicada na edição de outubro de 2006 do jornal Bon Vivant

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