Jornal do Vinho

Segundo com ares de primeiro

Jean-Guillaume Prats fala sobre como é cuidar de uma das mais renomadas propriedades de Bordeaux, o Château Cos d’Estournel

Marcos Pivetta/www.jornaldovinho.com.br*

28/07/2010
© Gladstone Campos
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Prats: "Creio que há uma divisão muito clara: de um lado, há os os cinco premiers crus e, do outro, os demais vinhos classificados"

Administrador geral do famoso Château Cos d’Estournel, uma das mais valorizadas propriedades vitícolas de Bordeaux, situada na comuna de Saint-Estèphe, Jean-Guillaume Prats, 41 anos, é um homem muito ocupado. Mas, no início de junho, em meio à campanha en primeur, que define os preços de comercialização dos principais rótulos de Bordeaux da safra passada para os négociants responsáveis por revender os vinhos para distribuidores ao redor do mundo, Prats ficou pouco mais de 24 horas em São Paulo. Ao lado de 80 produtores de vinho de 15 países, veio participar do 5º Encontro Mistral, evento promovido a cada dois anos pela importadora Mistral em São Paulo e no Rio de Janeiro. Na histórica e quase imutável classificação dos vinhos da sub-região bordalesa do Médoc elaborada em 1855, o tinto Cos d’Estournel obteve o título de deuxième cru, atrás apenas dos cinco míticos premiers crus: Haut-Brion, Lafite-Rothschild, Latour, Margaux e Mouton-Rothschild. Desde então o Cos, que já pertenceu à família Prats e hoje faz parte dos ativos do milionário Michel Reybier, comanda preços altíssimos por seu grand vin, o vinho principal que sai de seus 64 hectares de vinhedos (58% de Cabernet Sauvignon, 38% Merlot, 2% de Petit Verdot e 2% de Carmenère). Cerca de duas semanas após Prats deixar o Brasil, a safra 2009 do Cos passou a vendida do château para os négociants a 210 euros a garrafa, um dos mais altos preços pedidos por vinhos de Bordeaux da colheita passada. Para os consumidores finais, as garrafas do Cos 2009 vão, é claro, custar muito mais caro, visto que há intermediários entre o vinho que sai do château e o que é adquirido numa loja ou importador. Em sua curta estada no Brasil, Prats deu a seguinte entrevista ao Bon Vivant:

Ser um deuxième cru classé de Bordeaux é mais fácil ou difícil do que ser um premier cru?

Essa é uma questão interessante. Jantei na quinta-feira passada com um amigo que dirige um premier cru e que me recebeu nesse château. A conclusão desse jantar é que muito mais difícil ter uma performance acima da média sendo um grande deuxième do que um premier. Isso porque a classificação de 1855 é um obstáculo que impede que você suba (na classificação). Para subir, é preciso ter os ombros bem fortes para empurrá-lo. Mas, repondendo à sua questão, sim é muito difícil estar acima da média sendo um deuxième. E vou lhe dizer de uma maneira quase arrogante que, quando um deuxième cru recebe de um jornalista a mesma crítica que um premier cru, isso quer dizer que esse deuxième é melhor que esse premier.

Dividir os vinhos de Bordeaux de acordo com a classificação de 1855 ainda é válido?

Creio que há uma divisão muito clara: de um lado, há os os cinco premiers crus e, do outro, os demais vinhos classificados. Ser um cinquième ou deuxième cru, não faz muita diferença. A classificação é algo comparável à noção de aristocracia europeia. Um príncipe de sangue, um príncipe real, é um premier cru. Ele ocupa uma classificação à parte. Um barão, um conde, um marquês é mais ou menos a mesma coisa, como ocorre com os demais vinhos classificados. Não há muita distinção entre eles. Mas eles são aristocratas. O importante, nesse caso, é ser um cru classé em oposição aos crus bourgeois (uma classificação de menor prestígio, instituída em 1932, que inclui vinhos que ficaram de fora da lista de 1855).

Nesse contexto, ainda é um objetivo para o Cos ser um premier cru?

É, mas sabemos que a classificação muito provavelmente nunca será revista. Isso é um objetivo do ponto de vista do reconhecimento do consumidor. Queremos que o consumidor considere o Cos como um equivalente de um premier cru. Mas sabemos muito bem que nunca haverá um Cos com um rótulo dizendo que ele é premier cru. Por que sabemos disso? Porque ser premier cru é um título de aristocracia, é como ser da família real da Bélgica ou da Espanha.

Como você decide o preço de cada safra do Cos?

A fixação de preço dos grandes vinhos de Bordeaux se dá de um modo que é o menos racional, menos matemático, menos pragmático que se conhece entre os bens de consumo de luxo do mundo. Não há nenhuma análise pertinente a respeito disso. Há uma conjunção de elementos que levamos em conta na hora de fixar o preço: a qualidade geral da safra; como se saiu nosso vinho nessa safra; o número de caixas (de vinho) que você quer vender e quanto você quer manter em estoque; a força de nossa marca no mercado; a cotação do dólar em relação ao euro; o ambiente macroeconômico do momento; e tendência geral de preços dos grandes vinhos de Bordeaux. Tudo isso conta.

Você então olha o preço dos outros châteaux antes de decidir o seu?

Eu não disse antes. Todas esse elementos são analisados ao mesmo tempo, de forma concomitante. Se, por exemplo, o preço dos grandes vinhos de Bordeaux caiu 20%, você provavelmente não poderá aumentar em 10% o preço do seu vinho.

Definir o preço então é um quase como participar de um jogo?

Eu não utilizaria a palavra jogo. É um patchwork. O que quero dizer é que não posso simplesmente decidir que o meu vinho é bom e que eu vou cobrar tanto por ele. É preciso analisar todos esses aspectos do mercado e só então decidir.

Hoje qual é o mercado mais importante para o grand vin do Cos?

A Ásia, que representa 60% do mercado. Há 20 anos, acho que ainda era a Europa. Depois, passou a ser os EUA. E, há uns dois anos, é a Ásia, basicamente Singapura, Hong Kong e China.

Vamos deixar a questão dos negócios de lado e falar um pouco do vinho em si. Qual é a diferença de um Cos em relação aos outros grandes vinhos de Bordeaux?

O Château Margaux, por exemplo, tem aromas de violetas, de cerejas, de frutas vermelhas. É um vinho muito aristocrático e feminino. Nosso vizinho Château Lafite, faz vinho com aromas de caixa de charuto, perfumado. O Cos faz vinho muito potentes, masculinos, com aromas de especiarias. O Montrose, nosso outro vizinho, ao norte, faz vinhos parecidos com o Latour, com aromas de cereja e um coração de fruta. Cos faz um vinho aromas de especiarias e, há alguns anos, de estilo muito moderno.

O que é um vinho moderno para você?

É muito fácil explicar. É um vinho que já pode ser bebido alguns anos depois de ter sido engarrafado, talvez dois ou três anos depois. É um vinho fácil, que pode ser bebido rapidamente, mas que não perde sua capacidade de envelhecimento. É algo diferente do estilo clássico, que pedia 15 ou 20 anos para que os taninos se arredondassem. A modernidade é fazer vinhos com taninos redondos, com sutileza, madurez, equilíbrio, que possam ser bebidos ainda jovens. Esse é o caso dos nossos 2003 e 2005.

Quando e porque você decidiu mudar o estilo do vinho?

Isso ocorreu no ano 2000. Não mudamos o estilo por causa do gosto do consumidor. Foi uma mudança decorrente sobretudo do aquecimento global. Ele nos permite ter uvas bem maduras do ponto de vista fenológico aconteça o que acontecer. Há uns 15 anos não temos chuvas e tempo ruim durante a colheita. Podemos colher as uvas com polifenóis maduros. Isso nos permite fazer vinhos modernos, redondos. Não temos mais problema de madurez das uvas. Há 20 anos não era assim.

Até agora, então o aquecimento global é, para você, algo positivo?

Muito positivo. Mas representa uma mudança de estilo. Para o meu gosto pessoal, prefiro vinhos redondos, potentes, gordos, prontos para beber cedo, a vinhos mais austeros, como os nossos 1975 ou 1986, que são grandes vinhos, mas que precisam envelhecer muitos anos antes de estarem prontos para ser bebidos.

O senhor concorda com quem diz que o aquecimento global poderá introduzir novas cepas em Bordeaux, como a Syrah?

Acredito que não. Mas poderá mudar a forma como conduzimos o vinhedo. Talvez tenhamos que diminuir a exposição foliar das plantas, aumentar a densidade do vinhedo para aumentar o estresse e não é impossível que em alguns terroirs de Bordeaux genérico tenhamos que adotar a irrigação. Se as coisas continuarem assim, talvez tenhamos de falar disso daqui a 15 ou 20 anos. Não digo que seja a favor, mas acho que teremos de discutir a questão da irrigação no futuro. É um tema muito político. Não se pode esquecer que se fazem Cabernet e Merlot fantásticos num ambiente muito quente como o Vale do Napa (Califórnia) e lá não há chuva entre os meses de abril e outubro.

Quem é o consumidor de Cos?

É evidente que se trata de uma pessoa que tem dinheiro. Mas é alguém que compra um vinho com inteligência. Ele quer um premier cru, mas não quer pagar mil euros por uma garrafa. Quer um vinho de qualidade excepcional. Mas é um comprador inteligente, esclarecido, competente. Não é o comprador de um premier cru.

Qual é a importância do Brasil para o Cos?

Aqui há pessoas muito cultas e sofisticadas, que amam os grandes produtos do artesanato francês. Para nós, é importante falar com essas pessoas, que amam a moda, a decoração, as viagens e que amam os grandes vinhos. Se eu não pensasse assim, não teria feito uma viagem de ida e volta para ficar apenas 24 horas em São Paulo. Aqui a Mistral também faz um trabalho fantástico. Não queremos que todos os nossos clientes estejam apenas num país ou lugar. Queremos que o mundo todo conheça nossos vinhos.

Qual é o objetivo de um vinho como o Goulée, uma linha composta de um tinto e um branco de preço mais em conta feito pela equipe do Cos?

É propor um vinho de Bordeaux de qualidade muito boa que não seja caro, ao menos não muito caro. Na Europa, custa cerca de 30 euros a garrafa. É para os jovens, que estão se iniciando nos Bordeaux. Hoje chamamos o vinho de Goulée by Cos d’Estournel. No começo, era só Goulée. É um estilo de vinho com muita fruta, fácil, maduro, moderno, para se beber jovem. E, abre aspas, não é muito caro. Temos tido muito sucesso com ele. Na França, há uma cultura da vinha que é preciso contornar para se fazer um vinho como o Goulée. Tivemos de inventar uma nova garrafa para ele, pois não se trata de um vinho de château. Tecnicamente, é complicado fazê-lo. Tivemos que achar as vinhas, comprá-las e transportar as uvas para vinificá-las. É preciso ter meios para fazer isso. Nós tivemos condições de assumir esse risco. Mas outros não têm.

Qual é o futuro para região de Bordeaux como um todo?

Penso que muitas vinhas terão de ser arrancadas. Há vinhas plantadas em terroirs que historicamente não são de qualidade. Arrancar essas vinhas representa um problema humano, social e econômico a ser equacionado. Acredito que os vinhos realmente grandes de Bordeaux vão se tornar ainda maiores, mais disputados e, provavelmente, ainda mais raros. E, na faixa mediana do mercado, haverá um grande número de vinhos de boa relação qualidade/preço que o consumidor poderá comprar. Para resumir, diria que na ponta de cima, os grandes vinhos se tornarão ainda maiores e mais caros. Na outra ponta, a de baixo, muitos vinhos vão desaparecer. Será preciso arrancar vinhas com financiamento da União Europeia. Hoje as pessoas não conseguem mais ganhar a vida com essas vinhas. Essa situação gera dramas humanos e sociais extremos. O tonel de Bordeaux a granel de 900 litros da safra 2009, que é um vinho muito bom, vale hoje menos do que o seu custo de produção, cerca de 650 ou 700 euros. A única esperança para essas pessoas é arrancar as vinhas. Essa situação atinge de 5% a 10% da produção de Bordeaux.

*Esta matéria foi originalmente publicada na edição de julho de 2010 do Bon Vivant

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