Jornal do Vinho

Um ano em Barbaresco

Livro conta a história da safra 1989 do Sorì San Lorenzo, um dos ícones do produtor piemontês Angelo Gaja

Marcos Pivetta/www.jornaldovinho.com.br*

19/11/2007

Quando foi procurado pelo escritor norte-americano Edward Steinberg na segunda metade dos anos 1980, Angelo Gaja (a pronúncia é Gaia, tendo o j som de i), o mais famoso produtor do Piemonte e possivelmente de toda a Itália, chegou a desconfiar das reais intenções do seu interlocutor. Steinberg queria redigir um livro que contasse como são elaborados os vinhos não apenas do ponto de vista técnico e histórico, mas também humanístico. Queria fazer isso a partir do relato do que se passa num lugar e momento específicos, as parreiras de Nebbiolo do vinhedo San Lorenzo durante a safra de 1989. “Achei que Steinberg iria pedir algum dinheiro para fazer o livro. Hoje tenho até vergonha de ter pensado isso”, confessou o simpático Angelo, de 67 anos, durante visita ao Brasil em outubro para lançar a tradução em português da obra, A arte de fazer um grande vinho (Editora Martins Fontes, R$ 47). “Mas tudo o que ele me pediu foi um quarto para dormir quando estivesse em Barbaresco para as suas pesquisas.” San Lorenzo é um dos sorì de Gaja em Barbaresco, cidadezinha piemontesa de 650 habitantes, onde Angelo nasceu e sua família faz vinho há um século e meio. Em dialeto piemontês, sorì quer dizer vertente para o sul, de onde vem o sol. Seria o equivalente local ao termo francês cru, que, no mundo do vinho, é usado para designar um determinado vinhedo, em geral de alta qualidade.

Lançado originalmente em 1992 com o título em inglês The Vines of San Lorenzo (literalmente, As Vinhas de San Lorenzo), o livro não envelheceu mal. O bom texto de Steinberg prende a atenção do leitor e dá conta de explicar, em muitas passagens com leveza e poesia, aspectos técnicos da produção de um vinho que poderiam se tornar sem graça, maçante mesmo, na pena de um escriba menos talentoso. Até a adoção de um título mais genérico para a edição em português é justificável, sobretudo do ponto de vista comercial. Afinal, quantos dos potenciais leitores da obra, fácil de ser lida por quem não é um entendido em vinhos, teriam idéia do que seriam as tais vinhas de San Lorenzo? Portanto, o livro permanece atual, ainda que, desde então, muitos Nebbiolo (e outras uvas) tenham passado pelas barricas de Angelo. Com seus vinhos refinados e caros, alguns caríssimos (importados no Brasil pela Mistral), a grife Gaja cresceu ainda mais na década de 1990 quando a família adquiriu duas propriedades vitivinícolas na Toscana, Pieve Santa Restitutta, na área de produção dos Brunello di Montalcino, e Ca’Marcanda, na faixa litorânea de Bolgheri. Isso sem contar a compra da propriedade Gromis, na vizinha região de Barolo, colada à zona de produção de Barbaresco, no próprio Piemonte. Nada disso faz parte do tema principal do livro. Nem poderia, pois essas aquisições ocorreram depois de a obra ter sido escrita, embora um breve epílogo, redigido em 2002 e presente na edição em português, dê uma pincelada nessas questões.

O foco central de A arte de fazer um grande vinho são as transformações mentais e físicas que Angelo começa a impor nas terras da propriedade em Barbaresco a partir dos anos 1960, quando assume as rédeas do negócio familiar no lugar do pai Giovanni. Transformações no vinhedo e na vinícola, tanto na forma de plantar, podar e colher uva como na de fazer propriamente o vinho, que têm como objetivo final privilegiar a qualidade em detrimento da quantidade. São idéias que há algumas décadas soavam estranhas entre os moradores de Barbaresco (talvez soem até hoje em muitas partes do mundo), para não dizer entre os funcionários e membros da própria família Gaja. Steinberg dá voz no livro não apenas a Angelo, o patrão, mas também aos seus empregados, que, na prática, são os encarregados de implantar as tais mudanças. Luigi Cavallo, um antigo funcionário dos Gaja, diz que, com o comando de Angelo, tudo mudou da noite para o dia. “O geometra (referência a Giovanni, pai de Angelo) queria que lhe entregássemos uvas, e ponto final. Colhia tudo o que podia. Com Angelo, tudo mudou de figura. Só colhíamos uvas maduras. Se fosse preciso, percorríamos o vinhedo várias vezes”, diz o Cavallo, numa passagem do livro. Há tempos, nos pouco mais de 80 hectares de vinhas de que dispõe no Piemonte, Angelo mantém a produção anual em torno de 300 mil garrafas.

É preciso ter uma noção histórica de que os tintos de Barbaresco sempre foram considerados inferiores aos da zona vizinha de Barolo, que fazia “o vinho dos reis e o rei dos vinhos”, numa clara referência ao maior prestígio desse segundo tinto junto aos nobres de Turim, na Casa de Savóia. Ambos, Barbaresco e Barolo, são elaborados com a ácida e tânica cepa local, a Nebbiolo, mas o primeiro sempre foi visto como um irmão menor, uma versão júnior, de menos corpo e reputação, do segundo. Mas, graças a Gaja e outros bons produtores locais, como Bruno Giacosa, os Barbaresco conseguiram sair da sombra dos Barolo. “Tive sorte de ter nascido em Barbaresco”, disse Angelo, na recente passagem por São Paulo. “Nessa região, meus vinhos competem com os de outros 50 produtores. Um bom conhecedor de vinhos consegue descobrir o meu Barbaresco numa degustação às cegas. Já em Barolo há 300 produtores … “ Angelo é, sem dúvida, um grande enólogo. Os finos taninos de seus vinhos ainda na juventude são a prova disso. Mas é igualmente um showman, um talento da comunicação a serviço de seus vinhos. É difícil não se sentir amigo do homem depois de apenas dois minutos de conversa. Angelo é, ao mesmo tempo, italianíssimo e internacional. Faz vinhos com Nebbiolo e Sangiovese (na Toscana), mas também com Cabernet Sauvignon e Chardonnay. Não é à toa que a obra de Steinberg já vendeu 450 mil cópias, somando as edições em todas as línguas em que foi traduzida.

A propósito do mais famoso viticultor do Piemonte, cabe uma última observação: há uns poucos anos, Angelo parou de engarrafar seus Nebbiolo provenientes de um único vinhedo, como o Sorì San Lorenzo e o Sorì Tìldin, sob as regras da Denominazione di Origine Controllata e Garantita (DOCG) Barbaresco. Hoje esses vinhos são comercializados como Langue Nebbiolo. Portanto, não há mais um Barbaresco Sorì San Lorenzo. Mas sim um Langue Nebbiolo San Lorenzo. Segundo Angelo, a mudança foi uma forma de valorizar seu Barbaresco DOCG mais básico, que é feito com uvas de várias vinhas e estava sendo ofuscado demais pelos antigos Barbaresco de vinhedos únicos.

*Esta matéria foi originalmente publicada na edição de novembro de 2007 do jornal Bon Vivant

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