Jornal do Vinho

Um bom começo de ano

Da “farra” dos descontos a uma lista das importadoras mais careiras

Marcos Pivetta/www.jornaldovinho.com.br

16/02/2008

Janeiro passado, como é de praxe, foi o mês das promoções e descontos em muitas importadoras de vinho. Foi saldão pra tudo quando é lado, com reduções, sempre segundo as importadoras, de 40%, 50% até 80% sobre o (suposto) preço normal dos rótulos em promoção. Algumas promoções continuam até agora.

Sempre que vejo uma loja ou importador anunciando a venda de um vinho por apenas 20% ou 40% do seu (suposto) preço normal, desconfio da oferta. E um pensamento maldoso me toma de assalto: alguma coisa não deu certo na vida desse vinho – ou. talvez na da importadora – para que o rótulo entrasse na lista do bota-fora. Isso não quer dizer que não se deva comprar vinho em promoções ou que as lojas e as importadores não devam fazer seus saldões. Elas têm todo o direito de fazer isso. Mas eu compro sempre com parcimônia nas promoções. Como diz o ditado, quando a esmola é grande, o santo desconfia.

Um dos meus passatempos, ao ver a lista dos vinhos em promoção nos catálogos das importadoras, é tentar entender a lógica dos descontos. É um esforço que me leva a arriscar algumas hipóteses sobre o que há por trás dos saldões. Hipóteses não excludentes e sem qualquer pretensão de esgotar o intrincado e polêmico assunto:

1) O vinho era ruim, e/ou caro demais, e ninguém o queria. Para se livrar dele, só dando um descontão.

2) O vinho, sobretudo se for um branco sem maiores predicados e já avançado na idade, passou do ponto. Está oxidado, sem fruta, descendo a ladeira. Quem entende de vinho talvez não o queira mais. Quem não entende pode, pode … pode “aproveitar” o saldão.

3) O vinho, independentemente de ser bom ou ruim, caro ou barato em seu (suposto) preço normal, não conseguiu firmar sua imagem no mercado. Não tinha muita gente interessada em comprá-lo de forma espontânea por seu preço regular. O jeito de chamar a atenção para esse produto esquecido pela mídia e pelos clientes é incluí-lo no rol do bota-fora. Essa é a situação em que o consumidor, com sorte e alguma informação, garimpa bons vinhos a bons preços.

4) A importadora precisa fazer caixa e decide liquidar tudo que esteja encalhado ou ocupando espaço (e imobilizando capital) em seu depósito, além, é claro, dos rótulos que decidiu não trazer mais ou que migraram para uma importadora concorrente.

5) Uma vez por ano, por tempo limitadíssimo e no que diz respeito a não muitos rótulos, algumas importadoras podem posar de barateiras. Afinal, durante a maior parte do ano, cobram em geral caro pelos rótulos em seus catálogos e , portanto, teriam alguma margem de manobra para reduzir o preço habitual dos seus produtos. Além disso, se todo mundo está dando desconto, elas também têm de bolar alguma promoção. Ainda que para isso, tenham de aumentar um pouco o preço de alguns dos seus vinhos nos meses do fim do ano para, em janeiro, poderem fazer um bota-fora com números grandiosos. Ou seja, parece haver gente no mercado que, primeiro, aumenta o preço em, digamos, 60% para, depois, dar um desconto de 40%. É só uma hipótese …

Bem, chega de hipóteses. Por que toda essa conversa genérica sobre saldões e bota-fora?

Discutir preço de vinho é uma chatice. Mas uma chatice necessária, sobretudo no Brasil. Aqui, se você questiona o preço de um rótulo qualquer numa loja ou importadora (para não falar em restaurante, que é outra história ainda), o interlocutor já tem a justificativa na ponta da língua. “O governo é nosso sócio. Pagamos muitos impostos e a burocracia é alta”, diz o interlocutor. O pior é que é tudo verdade. Mas todo mundo paga muito imposto no Brasil. Não é exclusividade do setor de vinhos. Que setor paga poucos impostos no Brasil? Bem, talvez os bancos …

A verdade é que os altos impostos, o chamado Custo Brasil, os nossos inúmeros gargalos logísticos, tudo isso explica uma parte dos preços exorbitantes de vinhos no país. A outra parte se deve à política de preços das importadoras, dos produtores de vinho e das lojas. Tem empresa careira. Tem empresa com preço na média do mercado. E tem empresa com preços, para os padrões do mercado nacional, relativamente baratos.

Qual é o jeito de saber se um vinho está com bom preço no Brasil? Entre no site Wine-Searcher (pode ser na versão gratuita mesmo), que lista a cotação de vinhos em boa parte do planeta, e verifique quanto os americanos e ingleses pagam por esses rótulos. Esses dois mercados, muito sofisticados, com milhares de rótulos disponíveis em sua prateleiras, ajudam a formar a reputação internacional dos vinhos (e também o seu preço) e são uma boa referência.

Prepare-se para surpresas desagradáveis, mas necessárias. Com certeza, mesmo os vinhos sul-americanos, feitos aqui do lado e que gozam de certas benesses fiscais no caso da Argentina e do Uruguai, serão bem mais baratos nos EUA e Inglaterra do que Brasil. É assim mesmo na imensa maioria dos casos. Mas preste atenção na diferença entre o valor cobrado nos mercados americano e inglês e o preço pedido por seu importador. Quão mais caro é o vinho no Brasil em relação a esses países? Pode ser algo entre 50% e 300% a mais. Se quiser ter menos trabalho, faça a comparação apenas com o mercado norte-americano.

Foi exatamente isso que Oscar Daudt, do site www.enoeventos.com.br, baseado no Rio de Janeiro, fez no início de janeiro, bem no mês das promoções das importadoras. Num artigo ponderado e feito com capricho, intitulado “Qual a importadora mais barata”, Daudt comparou, com ajuda o Wine-Seacher, o preço no Brasil e nos EUA de mais de 120 vinhos trazidos aqui por 13 importadoras. Prestou um serviço e tanto ao consumidor, que merece ser divulgado.

No levantamento, que, claro, não representa a verdade absoluta e sempre pode ser questionado aqui e ali por alguma importadora, a empresa mais barateira foi a Cellar, cujos vinhos comparados custavam, em média, “apenas” 50% a mais aqui do nos EUA. A Cellar é uma pequena e discreta importadora de São Paulo, com poucos e, em geral, bons vinhos, da qual a gente pouco ouve falar … A campeã dos preços altos foi a Terroir, com uma diferença de até 470%. O dono da Terroir gosta de se autointitular “o homem do vinho” … Como se vê, num mercado de preços normalmente altos como os do Brasil, há quem consiga se destacar por cobrar ainda muito mais caro do que a concorrência.

Confira os resultados resumidos do trabalho de Daudt (mas não deixe de ler o artigo original, por favor):

Diferenças de preços (para mais) entre Brasil e EUA

1 – Cellar – 50,4%

2 – Supermecados Zona Sul (do RJ) – 74, 7%

3 – Mistral – 112,2%

4 – Vinci – 149,1

5 – Reloco – 159,8

6 – Decanter – 170

7 – Grand Cru – 194,9

8 – World Wine – 209,5

9 – Zahil – 233,7

10 – 0 Expand 235,5

11 – Peninsula – 282,1

12 – Terroir (com descontos promocionais) – 282,1

13 – Enoteca Fasano – 290, 2%

14 – Terroir (preço de lista) – 437%

Que tal fazermos como o Daudt e usarmos cada vez mais o Wine-Searcher para fugir dos preços altos?

Print Friendly, PDF & Email

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *