Jornal do Vinho

“É só questão de tempo até vermos o primeiro Bordeaux feito de Syrah”

Em sua segunda visita ao Brasil, Jancis Robinson fala das mudanças no mundo do vinho e também do que encontrou por aqui

Marcos Pivetta/www.jornaldovinho.com.br

28/11/2007

Jancis com Hugh Johnson no lançamento do The World Atlas of Wine em Londres (Foto: Divulgação)

Quatro anos depois de sua primeira visita ao Brasil, Jancis Robinson, provavelmente a mulher mais versada em tintos e brancos no mundo, deu novamente o ar de sua graça em nossas terras tropicais. Escoltada pelo marido, Nick Lander, crítico de restaurantes do jornal britânico Financial Times, e por um dos três filhos do casal, a crítica inglesa de vinhos conheceu rapidamente o que a Bahia tem – passou alguns dias em Salvador e num resort ecológico na península de Maraú, no sul do Estado – antes de desembarcar em São Paulo. Simpática, inteligente e despachada, essa Master of Wine deu palestras, conduziu degustações e conheceu restaurantes na capital paulista. Ela veio a São Paulo a convite da revista Prazeres da Mesa, da qual é colunista, para participar de dois eventos organizados pela publicação gastronômica no Centro Universitário Senac, o Prazeres da Mesa Ao Vivo e o Mesa Tendências.

Assumidamente viciada em trabalho, a súdita da rainha Elizabeth II é uma autora pra lá de profílica. Tem mais de uma dezena de livros publicados. Sua mais recente obra, lançada no exterior em outubro passado, é a sexta edição do The World Atlas of Wine, ao lado do amigo Hugh Jonhson, um autor que dispensa apresentações no mundo do vinho. Jancis escreve ainda matérias sobre vinhos para diversas publicações, como o Financial Times e revistas de 12 países. E, claro, atualiza freneticamente seu site, www.jancisrobinson.com, que tem seções gratuitas, abertas para qualquer internauta, e partes pagas, de acesso restrito a assinantes.

Os vinhos brasileiros não são assunto freqüente nos textos de Jancis, até porque a presença dos rótulos nacionais nos mercados do exterior ainda é ínfima. Mas os tintos tropicais feitos no Vale do São Francisco parecem lhe despertar curiosidade, ao menos como novidade entre os chamados vinhos das novas latitudes. Em junho passado, num artigo publicado no site de Jancis, a inglesa Julia Harding, braço-direito da senhora Robinson e também Master of Wine, deu boas notas para alguns vinhos brasileiros que degustara em Londres. Jancis pediu para Julia abaixar um pouco a pontuação de um ou outro vinho a fim de colocar os rótulos verde-e-amarelos no contexto da produção mundial da bebida, sem, no entanto, fazer maiores reparos. Na ocasião, o rótulo mais bem classificado foi o Salton Talento 2004, com nota (corrigida) de 17 em 20 pontos possíveis.

Nesta entrevista, concedida num intervalo de seus compromissos em São Paulo, Jancis fala das diferenças entre um bom vinho e um grande vinho, do preço exorbitante dos Bordeaux de alta gama, dos rótulos nacionais (“Eles certamente estão melhores do que há quatro anos, quando estive aqui pela primeira vez”) e também dos efeitos do aquecimento global sobre a vitivinicultura. “É realmente uma questão de tempo até vermos o primeiro Bordeaux feito com Syrah”, diz. “E depois haverá também os Bordeaux Grenache.” Com a palavra, essa inglesa de humor e ironia, claro, britânicos.

Qual a diferença entre um bom vinho, um vinho muito bom e um vinho excelente?

Acho que um bom vinho é agradável e tecnicamente perfeito, sem, talvez, tocar a sua alma ou expressar um lugar. Um vinho muito bom geralmente expressa um lugar ou talvez uma variedade de uva ou variedades. E um vinho excelente é aquele que emociona e geralmente é capaz de se desenvolver na garrafa por pelo menos dez anos. Acho que a maioria dos vinhos excelentes é capaz de envelhecer. A única exceção talvez seja o Condrieu, um vinho branco do norte do Rhône (feito com a uva Viognier), que, a meu ver, não melhora com a idade. Ele geralmente está no seu auge nos seus dois primeiros anos.

Você sempre dá uma nota melhor para um vinho que tem capacidade de envelhecer do que para outro que não tem esse atributo?

Acho que sim. Essa é uma das coisas mágicas do vinho, a capacidade que alguns rótulos têm de melhorar com o tempo.

Quando você se depara com um bom vinho, mas que não apresenta a tipicidade esperada, como você avalia esse rótulo?

Posso dar a ele uma nota 16,5 de um total de 20 pontos. Pode ser um vinho muito bem feito, mas talvez sem aquele ingrediente mágico. Se ele for realmente admirável, posso até dar uma nota mais alta. Nem todos os vinhos precisam ser típicos.

Caso contrário, tudo seria igual e os vinhos de uma região não mudariam nunca.

Sim, claro.

Qual é a qualidade mais difícil de se encontrar num vinho? Há quem fale no equilíbrio dos elementos ou em sua capacidade de envelhecer bem.

Acho que provavelmente é algo realmente intrigante no vinho que faz você querer voltar e voltar a ele e provar um pouco mais do que há no copo.

Um vinho descrito como best value, uma boa compra, tem necessariamente de ser barato? Quão caro pode ser um best value?

Não, ele não precisa ser barato. Eu poderia descrever um vinho que vende por centenas de libras a caixa – estou falando dos preços cobrados na Inglaterra – como um best value. A caixa dos grandes Bordeaux hoje é vendida pelos distribuidores a milhares de libras. Nesse contexto, uma caixa de 12 garrafas de um Bordeaux realmente bom por 500 libras pode ser considerada uma boa compra. Não acho que os vinhos de boa relação preço/ qualidade estão somente na parte de baixo do mercado. Estão em todas as faixas. Mas é claro que há vinhos com preços exagerados.

Os grandes Bordeaux, os famosos Borgonhas e vinhos badalados de outras regiões não estão com preços realmente estratosféricos?

Há um argumento de que, se há muita gente disposta a comprar esses vinhos, eles não podem estar com o preço exagerado. Mas eu acho que há muitos vinhos caros que estão com preços exagerados. E também há muitos produtores que dizem o seguinte: quero vender meu vinho por esse preço. Então não é só mercado (que torna esses vinhos caros).

Tem produtor que coloca o vinho numa garrafa pesadona, com um rótulo atrativo, e decide cobrar caro.

Sim, também há isso. Acho que há vinhos com preços exagerados em todo lugar. Acho mesmo. Os preços aumentaram tanto que alguns vinhos saíram até da esfera de pessoas como eu, que poderia comprá-los. Acho que só comprei seis garrafas da safra de 2005 de Bordeaux. Acho que há uma tendência de ser vender (grandes) vinhos em unidades cada vez menores. Somente os investidores querem comprar esses vinhos em quantidades maiores. E esses investidores não querem beber vinho. Querem vendê-lo. É triste.

Do ponto de vista histórico, as coisas sempre foram assim ou esse fenômeno é realmente recente?

Hoje há muito mais investidores no mercado de vinho que compram apenas e puramente por motivos financeiros. Isso é ruim. Eles transformaram os vinhos finos em commodity de investimento. A proporção de vinho fino de alta gama que vai para o mercado de investimentos costumava ser menos de 10%. Hoje acho que deve ser provavelmente de 60%. Houve uma mudança muito grande. E isso aconteceu nos últimos anos, muito rapidamente. Tem muito dinheiro voando no mundo. Muito vinho na mão de colecionadores e investidores.

Que alterações devido às mudanças climáticas você acredita que ocorrerão nos vinhedos do planeta e no tipo de vinho que se faz?

As pessoas vão plantar variedades diferentes, variedades de amadurecimento tardio e mais variedades mediterrâneas. Quero dizer que é realmente uma questão de tempo até vermos o primeiro Bordeaux feito com Syrah (uva de climas mais quentes). E então haverá também Bordeaux Grenache. Outra questão é a da irrigação, que hoje é permitida em lugares em que isso nunca fora necessário, como na Alemanha. Em termos de fazer vinho, temos apenas de olhar para as leis européias. Hoje há um lobby para que os viticultores do norte da Europa possam adicionar ácido em seus vinhos, algo que eles nunca precisaram fazer no passado.

Você acha que as mudanças climáticas serão boas para algumas áreas e ruins para outras?

No momento, as mudanças climáticas são boas para a Europa do Norte e o Canadá. Mesmo a médio prazo, as mudanças climáticas devem ser boas para áreas sob influência do Pacífico no Oeste dos Estados Unidos. Mas acho que em todos os outros lugares a influência a médio prazo pode ser ruim.

Qual a sua opinião sobre os vinhos brasileiros? Você experimentou mais alguns na viagem?

Bem, experimentei alguns. Eles certamente estão melhorando. Eles certamente estão melhores do que há quatro anos, quando estive aqui pela primeira vez. Mas, por ora, só experimentei sete. Não posso generalizar. (Nos dias que se seguiram a esta entrevista, Jancis teria a chance de provar mais vinhos nacionais e chegou a elogiar alguns, como o Chardonnay sem madeira da Pizzato e o espumante brut Miolo Millésime, segundo matéria publicada no jornal O Estado de S. Paulo de 1° de novembro).

Você sabia que o artigo da Julia Harding em seu site sobre os vinhos brasileiros foi bem comentado por aqui?

É verdade? Ela deu notas bem altas para os vinhos! (dando risada). Perguntei para ela: você tem certeza (dessas notas)? (Jancis pediu para Julia diminuir um pouco as notas de alguns vinhos). Como você lida com essa questão das notas dos vinhos com a Julia?

Ela trabalha para mim há dois anos, talvez três. Mas é recente o fato de ela estar basicamente se ocupando do site, e não tanto dos meus livros. Nós duas temos gostos bem semelhantes. Por exemplo, um vinho da semana que coloquei recentemente no site, um branco espanhol, também foi o rótulo preferido da Julia numa degustação. Ela escolheu o mesmo vinho que eu havia selecionado.

Li um artigo seu recente sobre a expansão das áreas de produção de vinho no mundo e, no que diz respeito ao Brasil, você me pareceu mais interessada nos vinhos elaborados no Vale do São Francisco do que nos feitos no Sul do país. Estou certo?

Acho que não é bem assim. Você não está sendo justo. No artigo que você menciona, tento mostrar como o mundo do vinho está se expandindo para novas áreas. Nesse contexto, não há razão de escrever sobre as velhas áreas produtoras. Há algo de muito noticioso em se produzir vinhos a 8 graus de latitude sul. É uma história interessante do ponto de vista jornalístico. Fora do Brasil, demoraria muito tempo para explicar para as pessoas onde fica exatamente a Villa Francioni (vinícola de Santa Catarina). Eu poderia dizer que ela fica ao norte da área produtora mais tradicional do Brasil, mas as pessoas (do exterior) não sabem onde fica a área tradicional. Nunca ouviram falar dela. Por outro lado, é muito fácil captar a idéia da produção de vinhos no paralelo 8 ao sul do Equador.

Qual a sua impressão do mercado de vinhos no Brasil nesta sua segunda visita?

Parece ser bastante excitante. Há cartas de vinhos muito boas. Estive no restaurante A Figueira Rubaiyat hoje no almoço e eles tem uma seleção de vinhos muito boa. Mas bastante cara. De quanto são os impostos sobre o vinho no Brasil?

Quase metade do preço final do vinho. Mudando de assunto, eu queria saber o que você, Nick e sua filha caçula fizeram na Bahia?

Ficamos hospedados no Convento do Carmo em Salvador (um antigo mosteiro carmelita no Pelourinho que virou hotel de luxo), que é um lugar fantástico. Também ficamos num novo resort em Maruá, no sul da Bahia. De Salvador, você voa por meia hora para chegar lá. É numa península, sem ruas asfaltadas, com praias muito longas e nada mais. Muito bonito.

O que vocês comeram no Nordeste?

Tentamos comer o máximo possível de comida local. Na última noite, fomos no bufê do Senac em Salvador. Ali toda a comida local tem uma etiqueta com o seu nome em inglês. Você pode ler, ver e comer. Meu marido escreve sobre restaurantes e isso foi muito útil.

O que você vai beber no Natal?

No Natal, estarei com a família nas Ilhas Maurício (arquipélago africano, perto de Madagascar, no oceano Índico). Portanto, não sei o que vou beber. Suspeito que seja mais fácil encontrar vinhos franceses nas Iles Maurices. Mas eu realmente não sei o que vou beber. Obrigado por me lembrar dessa questão. Eu ainda não havia pensado nisso. Provavelmente vou viajar e levar um pouco de vinho comigo, provavelmente champanhe. Acho que vai estar bem quente no Natal lá. E minhas três crianças adoram champanhe. Vou levar champanhe.

Eles já têm idade para beber?

Ah, sim. Eles têm 25, 23 e 16 anos. A mais nova está conosco. Ela está tendo uma viagem adorável.

*Esta matéria foi originalmente publicada na edição de novembro de 2007 do jornal Bon Vivant

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