Jornal do Vinho

A feira dos alternativos

No mesmo período da Expovinis, um evento independente reuniu 150 vinhos de 40 produtores biodinâmicos do exterior

Marcos Pivetta/www.jornaldovinho.com.br*

17/05/2008

Capa do livro de Joly, lançado na feira (Foto: Marcos Pivetta)

No dia 29 de abril, num elegante bufê da cidade de São Paulo, distante dez quilômetros do local onde se desenrolava a Expovinis 2008, uma outra feira, bem menor e mais seleta, transcorria calmamente. Nesse evento alternativo, cuja entrada custou entre R$ 140 e R$ 200 por pessoa dependendo do momento em que se adquiriu o ingresso, havia uma trupe muito particular de cerca de 40 produtores, a maioria da Europa, com destaque para os franceses, servindo aos visitantes 150 vinhos. Todos feitos segundo os preceitos da agricultura biodinâmica, uma vertente radical e mística do cultivo orgânico.

A estrela do evento, a 1ª Feira de Vinhos Biodinâmicos no Brasil, foi o produtor Nicolas Joly, dono da famosa propriedade Coulée de Serrant na região de Savennières, no Vale do Loire, onde faz brancos muito particulares com a uva Chenin Blanc. Na feira, Joly, grande divulgador das idéias da biodinâmica, lançou a edição em português do livro Vinho do Céu à Terra (Editora Vinum, R$ 38), em que explica em linguagem acessível aos leigos os preceitos desse tipo de viticultura.

Na verdade, a feira foi a escala brasileira das degustações que o grupo de produtores biodinâmicos chefiado por Joly, chamado Renaissance des Appellations (Renascimento das Denominações de Origem) promove periodicamente em algumas partes do mundo. O grupo congrega 152 produtores de 13 países. Quase todos fazem vinho, com exceção de um fabricante de chocolate de São Tomé e Príncipe e de um cafeicultor do Brasil, a Camocin Organics, do Espírito Santo. “Nas degustações que promovemos na Europa, levamos até 80 produtores”, disse Joly em entrevista exclusiva. “No Brasil, que é mais longe, conseguimos trazer uns 40.”

Joly não é um homem de meias palavras. Rechaça com veemência a freqüente associação da viticultora biodinâmica à idéia de misticismo. “Já nos chamaram de hippies, de loucos, de esotéricos”, afirmou. “Mas o que fazemos é uma viticultura natural que deixa o terroir e seu microclima se expressar.” Além de ser contra o uso de pesticidas e herbicidas sintéticos nos vinhedos e de condenar boa parte das chamadas tecnologias modernas de vinificação, o francês refuta com vigor ainda maior (provavelmente excessivo) o avanço da biotecnologia e da engenharia genética. Joly é um sujeito inteligente e articulado. Estudou finanças nos Estados Unidos antes de se apaixonar pela biodinamia no fim dos anos 1970 e abraçar os vinhedos da família no Loire. Ao contrário de alguns produtores biodinâmicos, que dizem que o custo de elaborar vinhos dessa forma é mais elevado do que o de produzir de maneira convencional, o produtor do Loire garantiu que isso nem sempre é verdade. “Você gasta mais com mão-de-obra para cuidar do vinhedo, mas economiza em fertilizantes e outros produtos químicos”, ponderou.

Dificilmente alguém não convertido à biodinamia vai concordar com tudo o que Joly diz. No entanto, é impossível não respeitar a sua visão alternativa de viticultura e reconhecer a qualidade de seus vinhos. Não só dos seus vinhos, aliás. Quem provou os rótulos servidos na feira de São Paulo constatou o altíssimo nível alcançado por alguns produtores que seguiram as idéias agrícolas postuladas pelo filósofo austríaco Rudolf Steiner (1861-1925), o pai da antroposofia e também do biodinamismo. Na Alsácia, os melhores produtores – como o Domaine Marcel Deiss e o Domaine Zind Humbrecht, que estavam representados na feira – praticam esse tipo de cultivo orgânico. “A biodinamia reforça a mineralidade dos vinhos”, dizia o simpático casal de produtores Geneviève e François Barmès, do Domaine Barmès Buecher, de Wettolsheim, Alsácia. Eles entraram apenas no começo deste ano para o grupo Renaissance des Appellations. Seus brancos, sobretudo os feitos com a cepa Gewurztraminer, foram uma das boas descobertas proporcionadas pela feira. Eles ainda não têm importador no Brasil, um deslize que deve ser corrigido rapidamente com o sucesso que fizeram em São Paulo.

*Esta matéria foi originalmente publicada na edição de maio de 2008 do jornal Bon Vivant

Print Friendly, PDF & Email

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *