Jornal do Vinho

De olho no marketing e nos Bric

Primeiro espanhol a se tornar Master of Wine, Pancho Campo diz que os vinhos de seu país melhoraram muito, mas é preciso investir em promoção e nos mercados dos países emergentes

Marcos Pivetta/www.jornaldovinho.com.br*

Publicado em 20/10/2008

Pancho Campo: congressos e preocupação com os efeitos do aquecimento global sobre os vinhos do mundo

O catalão Pancho Campo viveu várias vidas antes de optar por uma existência entre tintos e tintos. Formou-se em medicina, mas, apaixonado por tênis, foi durante 15 anos treinador desse esporte nos Estados Unidos, na Europa e até no Qatar, tendo convivido com celebridades das quadras como Andre Agassi e Monica Seles. Em seguida, teve uma empresa de eventos esportivos e musicais, com a qual promoveu na Espanha concertos de nomes de peso, como Pink Floyd e Sting. Em 2003, fundou a Wine Academy of Spain, e logo em seguida passou a se dedicar exclusivamente a dar cursos e a promover os vinhos de sua terra. Campo, que hoje vive em Marbella, na Andaluzia, viaja o mundo falando dos vinhos espanhóis e de um tema ainda pouco debatido entre os produtores da bebida: os efeitos das mudanças climáticas na vitivinicultura. Desde 2006, organiza, a cada 2 anos em Barcelona, um congresso internacional sobre mudanças climáticas e vinho. No último evento, levou ninguém menos do que Al Gore, o quase presidente dos Estados Unidos, com que troca emails com freqüência. Em agosto, Campo, que acaba de se tornar o primeiro Master of Wine da Espanha, esteve pela segunda vez no Brasil dando os cursos de sua empresa. “A Espanha está na moda, mas os produtores de vinho não sabem aproveitar isso”, diz, em entrevista exclusiva.

Como iniciou seu interesse pelo vinho?

Quando eu tinha 16 ou 17 anos, meu pai me ensinou como degustar, como servir vinho, e também me mostrou a diferença que havia entre tomar vinho e cerveja ou tipo de bebida alcoólica. O vinho era para o prazer e não para ficar bêbado. Fomos juntos visitar algumas vinícolas e vinhedos comecei a gostar do assunto. Meu sonho sempre foi pegar uma taça e descobrir de onde era o vinho, qual era sua uva e qual seu nível de qualidade. Por isso, fiz o curso de Master of Wine.

Você foi treinador de tênis por quando tempo?

Fiquei quinze anos no tênis como treinador. Mas não queria mais viajar tanto, tinha muitas lesões e estava gordo. Quando me retirei do circuito de tênis, em 1988,montei um empresa de eventos, sobretudo de eventos esportivos e depois também de música. Mas meu hobby era o vinho e eu continuava visitando vinícolas. Meu sonho era me retirar e ter uma loja de vinho, um wine bar. Em 2003, decidi começar com o vinho, fazendo cursos e provas, e fundei a Wine Academy of Spain.

O que ela faz exatamente?

Quatros coisas. Damos os cursos do Wine & Spirit Education Trust (conhecida entidade inglesa) em toda a Espanha. Damos também cursos de Spanish Wine Education, como o que estamos dando aqui no Brasil, no qual falamos dos vinhos e da indústria espanhola. Falamos ainda do tema mudanças climáticas e vinho, algo muito importante para mim. Fomos os fundadores do congresso mundial sobre esse tema. E, em quarto lugar, começamos há 8 meses, a organizar tours para levar pessoas à Espanha para conhecer vinícolas, participar de degustações, ir a restaurantes famosos.

Na últimas duas décadas, a produção espanhola se modernizou e mudou muito. Como você a define hoje?

Ela mudou muito desde que entramos na União Européia. Havia subvenção, dinheiro e as vinícolas se reformaram, investiu-se em tecnologia, arquitetura, conhecimento, educação. O vinho espanhol melhorou muito nos últimos dez anos. O vinho espanhol agora está muito na moda nos EUA. Eles acham que o vinho espanhol tem uma boa relação preço/qualidade. (O crítico) Robert Parker deu 100 pontos a cinco vinhos espanhóis da safra 2004 e a três da 2005. O problema da Espanha é que há muitos vinhos bons, boas vinícolas, mas cada vez se bebe menos no país.

Isso acontece em praticamente toda a Europa. Mas, em compensação, o mercado aumenta em outras partes do mundo.

A Espanha é o terceiro produtor de vinhos do mundo em quantidade e o maior em área de vinhedos. Temos de vender mais vinhos e a melhor preço. Falta marketing e promoção à Espanha. Esse é o principal problema.

Mas esse também é um problema dos franceses, não acha?

O problema na França é diferente. A qualidade dos vinhos básicos franceses é ruim se comparada à da Austrália, Chile, Argentina e Estado Unidos. Na faixa abaixo dos sete dólares, o vinho desses países é muito melhor do que o francês. As pessoas se deram conta disso e já não querem comprar vinhos franceses de 10 ou 12 euros. O vinho francês é bom nos patamares mais altos do mercado. É claro que eles precisam melhorar o marketing, mas eles também têm um problema de qualidade.

A Espanha sempre foi muito associada aos vinhos de Rioja. Hoje de que forma você separaria a produção espanhola em termos de estilo?

Diria que hoje temos algumas regiões que são fortes na produção de tintos. Rioja seria a primeira região. Ela se modernizou muito e mudou de estilo. Depois, viriam Priorato e Ribera Del Duero, Jumilla e Murcia e Toro. Essa regiões fazem vinhos modernos, que as pessoas gostam e que estão voltados para o mercado norte-americanos. São vinhos grandes, com muito álcool, cor e taninos e muita fruta. Não se pode esquecer também dos cavas, que são o segundo espumante mais vendido no mundo, atrás apenas dos champanhes. Economicamente, os cavas são muito importantes para a indústria espanhola. Apenas o Jerez não consegue decolar.

Por que isso ocorre com o Jerez?

O problema é que houve uma época em que os Jerez baixaram de qualidade. Houve um boom de Jerez e não havia qualidade. Além disso, hoje há muitas leis na Europa que tentam diminuir o consumo de álcool, sobretudo antes de conduzir carros. E o Jerez é um vinho fortificado. Tem a imagem de ser um vinho demasiado forte.

Você acha que as pessoas não estão mais querendo esse tipo de vinho ou é só uma questão de marketing ruim do Jerez?

É também uma questão de estilo, mas o problema principal é que o Jerez é um grande desconhecido. Fizemos cursos nos EUA, e mesmo na Espanha, e as pessoas não sabem o que é um Pedro Ximénez, um Palo Cortado (dois tipos distintos de Jerez). Creio que falta conhecimento e promoção do Jerez no mundo do vinho.

Fora dos Estados Unidos, como está o mercado internacional para os vinhos espanhóis?

Muito bom. Temos um bom produto, que está na moda. Mas temos um problema temporário: o valor do dólar. Isso nos está afetando muito.Estamos vendendo muito nos EUA. Mas se ganha menos dinheiro. Mas isso vai passar. Creio que o dólar vai subir um pouco e nossas exportações para a Ásia, Europa e América vão melhorar. Na Inglaterra, os chilenos estão na frente, os argentinos e californianos estão bem. Ainda temos de fazer um trabalho por lá, pois é um bom mercado. Na Escandinávia, estamos bem. Há um boom de interesse por coisas da Espanha no mundo. Nós temos o Rafael Nadal (tenista), Javier Bardem, Penélope Cruz, Antonio Banderas, os melhores chefes do mundo hoje são todos espanhóis, nosso futebol está em alta. Mas tudo isso os vinhateiros da Espanha não sabem aproveitar.

Você prefere o estilo mais velho, por exemplo, dos antigos dos Riojas, com menos corpo e menos fruta, ou o moderno?

Gosto mais do estilo moderno, mas desde que moderado, sem excessos. O importante é que cada região mantenha sua identidade. Um Rioja moderno pode ser fantástico, mas deve ser feito com as cepas da região. Tivemos um boom (de modernidade) e agora as pessoas estão buscando um equilíbrio entre os dois estilos. Estamos baixando um pouco o nível de álcool, o uso da madeira, a sobremadurez da fruta. O vinho espanhol está chegando num ponto em que vai ser o que deve ser.

A Espanha é um país quente e, por isso, vai sofrer mais do que outros os efeitos das mudanças climáticas?

Isso é um pequeno mito. Se o assunto é vinho e mudanças climáticas, os piores impactos serão nas zonas frias, como a Borgonha, na França, ou o Mosel, na Alemanha.

Mas tem gente que diz que as mudanças são boas para essas zonas, porque está cada vez mais fácil amadurecer a uva nesse lugares.

Em Bordeaux, até pode ser que as mudanças sejam boas, mas não na Borgonha. Tive uma conversa com Paul Pontalier, enólogo do Château Margaux (um dos mais famosos produtores de Bordeaux), e perguntei a ele qual era a sua opinião sobre as mudanças climáticas. Ele disse que as mudanças existem e que elas tinham sido muito boas para Bordeaux. Estou de acordo com ele. A uva amadurece mais facilmente e agora, sim, se pode fazer vinhos no estilo que agrada ao Parker sem ter de fazer loucuras. Mas, se o álcool continuar a subir em Bordeaux, o vinho se tornará um Cabernet no estilo do Napa Valley. Deixará de ser um Bordeaux. Portanto, a minha pergunta é: até que ponto as mudanças climáticas são benéficas? Os alemães do Mosel adoram as mudanças climáticas porque eles não têm mais que desclassificar vinhos. Hoje fazem vinhos muitos bons. Mas cadê os Eiswein (vinho do gelo)? E quando os vinhos do Mosel, que costumavam ter 7,5% ou 8%, começarem a subir de álcool o que acontecerá?. Um Riesling de 12% ainda vai ser um típico vinho do Mosel? Não creio. É preciso ter cuidado. Mas, no mundo do vinho, as pessoas apenas só despertam quando as coisas pegam no bolso. As mudanças climáticas ainda não chegaram na economia.

Depois de visitar duas vezes o Brasil, como você avalia o mercado brasileiro de vinhos?

Há pessoas com muita paixão e interesse pelos vinhos. Participei de grupos pequenos, mas de muita qualidade. Estive ontem num restaurante de São Paulo (o Amadeus) e vi um grupo de pessoas numa mesa, cada uma delas com suas maletas de copos e suas garrafas. As pessoas abriam vinhos espetaculares, provavam e discutiam. Isso não se vê na Espanha. O Brasil é um país grande. Acho que apenas 5% da população bebe vinho. Quando essa porcentagem crescer, esse mercado vai ter uma tremenda importância, como aconteceu nos EUA. Hoje se fala muito nos Bric (os chamados países emergentes, Brasil, Rússia, Índia e China). Creio que os Bric são o futuro do vinho. A China, o Brasil e a Rússia vão dar muito o que falar. Tenho dúvidas sobre a Índia. Lá só se pode beber depois dos 25 anos e há muitos impostos. As taxas de importação são loucas.

O que provou de vinhos do Brasil, em sua viagem anterior e nesta?

Participei na outra viagem de uma degustação de espumantes. Acho que provei uns dez ou doze vinhos. Na verdade, eles me surpreenderam favoravelmente. Reconheço que sou um ignorante. Pensava que no Brasil não se podia fazer bons vinhos. Mas os espumantes eram muito bons e provamos uns dois ou três tintos muito interessantes. Não me recordo o nome dos produtores, pois faz quase um ano. Em termos de modelo de negócios, o Brasil pode aprender com a Argentina e o Chile, mas deve manter a sua personalidade nos vinhos

*Esta matéria foi originalmente publicada na edição de setembro de 2008 do jornal Bon Vivant

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