O colunismo selfie

A egotrip de alguns que escrevem sobre vinho

Outro dia levei um parente ao dentista. Enquanto esperava que o dentista atendesse essa pessoa da família, fiquei folheando uma revista de gastronomia. Devo confessar que deixei de ler com regularidade essas revistas há alguns anos. É jornalismo chapa-branca demais para o meu gosto, salvo raras exceções.  Mas, como a revista estava ali e não havia nada a fazer, dei uma folheada.

Encontro a página de um colunista de vinhos.  Confesso que não li os textos do autor. Eu o conheço de degustações e mais ou menos sei qual é o seu estilo. Fiquei reparando nas fotos. Além da tradicional imagem do colunista no topo da coluna, havia, ao longo de três páginas, mais dois retratos do mesmo, sempre sorridente, é claro:  uma ao lado de um time de degustadores e outra com um produtor de vinho.  Impossível não concluir que o assunto mais importante do colunista não era nenhum vinho,  produtor ou tendência do mercado. Era ele mesmo. O colunista.

Esse colunismo selfie, que flerta com a autopromoção, é uma das pragas que minam a já baixa credibilidade do jornalismo especializado,  em especial o de gastronomia e de vinhos, para ficarmos apenas no tema do JV.  Até a venerável crítica inglesa Jancis Robinson, cujo trabalho respeito e admiro,  exagera ao dar uma foto colossal dela na página inicial de seu site. Bastaria uma foto pequena, que a identificasse para o leitor.  Robert Parker, o crítico americano que molda o paladar de inseguros e espertos,  aparece em três fotos na página inicial de seu site, uma grande e duas pequenas.

No jornalismo, há várias funções: repórter, pauteiro, editor, produtor (na TV e no rádio). Ser colunista costumava ser um privilégio, um estágio elevado na carreira de um jornalista. Era um espaço em que um profissional teoricamente bastante qualificado — ao menos na visão de quem era dono do meio de comunicação  — podia dar claramente sua opinião sobre as coisas, além de informação.  É claro que há (e sempre houve) colunistas mais personalistas e outro menos. Isso é normal. Mas três fotos do autor numa só coluna é demais, não? Isso não é coluna. É Facebook.

P.S: Neste espaço do site, rebatizado de Blog do Pivetta, vou falar basicamente das relações, difíceis, do jornalismo e do quase-jornalismo com o universo dos vinhos. Problemas éticos, conflito de interesses, amadorismo, subserviência — tudo isso estará em pauta Vamos ver no que dá.

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