Jornal do Vinho

O mais antigo vinho medicinal

Estudo mostra que bebida egípcia de 5 mil anos continha ervas e resinas para fins terapêuticos

Marcos Pivetta/www.jornaldovinho.com.br*

18/05/2009

Os antigos egípcios já misturavam ervas e resinas de árvores no vinho e o bebiam com fins medicinais há mais de 5 mil anos. Análises químicas mostraram que vestígios de ácido tartárico (um marcador molecular que indica a presença de um fermentado de uvas), de bálsamo, coentro, menta, sálvia e resina de pinho foram encontrados no interior de uma jarra de vinho resgatada da tumba do faraó Escorpião I, que remonta ao ano 3. 150 a.C, um dos primeiros senhores do rio Nilo. Essa prática medicinal foi provavelmente usada durante milênios, visto que também foi confirmada a presença de resina de pinho e alecrim numa ânfora oriunda do sítio de Gebel Adda, no sudeste do Egito, com idade estimada entre entre os séculos IV e VI d.C. Ou seja, cerca de 3 500 anos depois da morte do faraó.

A descoberta foi feita pela equipe do pesquisador Patrick E. McGovern, da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, talvez o principal arqueólogo das bebidas fermentadas. Descrito num artigo publicado online no dia 13 de abril na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), o achado indica que a grande civilização que floresceu ao redor do Nilo já usava compostos orgânicos em sua farmacopeia ao menos mil anos antes do que se acreditava. Até a confirmação da existência de partes de vegetais adicionadas ao vinho do faraó Escopião I, a referência mais antiga ao emprego de ervas medicinais pelos egípcios era um papiro do ano 1.850 a.C.

“A ideia mais importante que tiramos dessa pesquisa e de nosso corpo crescente de análises é que, por tentativa e erro, o homem pode ter descoberto remédios naturais durante milênios, remédios que estão enterrados em nossos achados arqueológicos e biomoleculares”, diz McGovern. “Analisando antigas bebidas fermentadas, que eram ideais para dissolver plantas alcalóides e outras substâncias, somos capazes de redescobrir alguns desses remédios.” Os cientistas estão convencidos da veracidade de seus dados, visto que foram obtidos com o emprego de diferentes e modernas técnicas de análise química, como a cromatografia líquida e a espectrometria de massa.

Um dos objetivos dos pesquisadores é tentar descobrir exatamente que tipo de preparados medicinais continham os vinhos e cervejas da Antiguidade e verificar se eles ainda podem ser de alguma utilidade prática hoje em dia. Não será surpresa se forem identificados nessas bebidas traços de artesunate, uma molécula solúvel em água e derivada da artemisina, droga contra a malária produzida a partir de uma erva chinesa. Em colaboração com colegas da área médica de sua universidade, McGovern está atualmente procurando decifrar que compostos estavam presentes em bebidas fermentadas ainda mais velhas do que as elaboradas pelos egípcios. Seu alvo principal é o registro químico mais antigo de que se tem notícia de um fermentado, um misto de vinho, saquê e talvez cerveja cujos resquícios foram encontrados em pedaços de vasos de 9 mil anos da região chinesa de Jiahu. No final de 2004, foi o próprio McGovern que confirmou a existência de resíduos de um fermentado nesses fragmentos de cerâmica. Se o cientista achar também compostos medicinais nesse vinho primordial, ficará demonstrado que a relação entre os fermentados de uva e a medicina beira quase os 10 mil anos.

*Esta matéria foi originalmente publicada na edição de maio de 2009 do Bon Vivant. É uma versão aumentada e modificada de texto anteriormente publicado neste site

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