Jornal do Vinho

Resveratrol em alta

Em camundongos, doses elevadas do composto presente no vinho tinto elevam a longevidade, combatem os problemas de saúde associados à obesidade e aumentam a resistência muscular

Marcos Pivetta/www.jornaldovinho.com.br*

15/12/2006

Novembro foi um mês cheio de notícias a respeito do resveratrol, polifenol encontrado principalmente na casca da uva e no vinho, em especial nos tintos, que parece trazer benefícios para a saúde humana. Na edição do dia 2/11 da revista Nature, um dos periódicos de maior prestígio da área científica, a equipe de David Sinclair, da Harvard Medical School, Estados Unidos, mostrou que altas doses diárias desse composto – 22 miligramas de resveratrol por quilo de peso – parecem ter aumentado a expectativa de vida de camundongos obesos de meia idade, além de, nos roedores, ter evitado ou diminuído a ocorrência da maioria dos problemas de saúde relacionados a uma alimentação muito calórica, como diabetes, distúrbios no coração e danos no fígado. Os animais que tiveram sua ração diária suplementada com resveratrol por seis meses também apresentaram melhor coordenação motora. O artigo de Sinclair foi o primeiro trabalho a relacionar a administração de resveratrol com a elevação da longevidade em mamíferos (em peixes, vermes e moscas, tal associação já foi sugerida em estudos anteriores). O pesquisador tem evidências de que o ingrediente do vinho ativa um grupo de genes, as sirtuínas, que estariam diretamente relacionados com o processo de envelhecimento do organismo. Segundo essa hipótese, o resveratrol imitaria os efeitos positivos das dietas pouco calóricas, que levariam as pessoas a viver mais.

Logo em seguida, num estudo divulgado no dia 15/11 no site da revista Cell, outra publicação de prestígio, a equipe de Johan Auwerx, do Instituto de Genética e Biologia Molecular e Celular, em Illkirch, França, reportou que doses diárias ainda mais elevadas de resveratrol, de até 400 miligramas por quilo de peso, aumentaram a resistência muscular de camundongos e diminuíram o seu ritmo de batimento cardíaco. Os animais que receberem o polifenol conseguiram correr o dobro da distância normalmente percorrida por um camundongo numa esteira. Em vez de um quilômetro, correram dois “O resveratrol faz você parecer um atleta treinado sem você ter treinado”, diz Auwerx. Os animais que ganharam sua cota do composto apresentavam nas células musculares mais mitocôndrias, as usinas de energia do organismo, do que os bichinhos que não tiveram sua dose do polifenol. Essa diferença seria a responsável pelo efeito positivo do resveratrol, que, segundo, Auwerx pode ter ação semelhante no ser humano. Como na pesquisa anterior, o ingrediente do vinho tinto aparentemente atua sobre genes da família das sirtuínas.

Os resultados dos dois estudos com resveratrol parecem ser bons demais para ser verdade. Afinal, seria uma maravilha se ficasse comprovado que o composto é realmente capaz de fazer as pessoas viverem mais, combater os problemas de saúde ligados à obesidade e, como um bônus extra, transformar sedentários em atletas sem que eles tenham se submetido a algum treinamento. Mas as coisas não são tão simples assim. Não que os estudos sejam tendenciosos, até porque foram feitos por pesquisadores sérios e publicados em revistas de alta reputação. Convém, no entanto, olhá-los com certa cautela e dentro de um contexto. Um ponto a ser levado em conta é a dosagem de resveratrol dada aos camundongos nos trabalhos. Em ambos os estudos, no de Sinclair e ainda mais no de Auwerx, a quantidade diariamente receitada do composto aos roedores equivale a centenas ou, em alguns casos, milhares de copos de vinho tinto. Ou seja, ninguém deve ter a ilusão de que apenas bebendo fermentados de uva vai se conseguir reproduzir em seres humanos os benefícios relatados nos animais. Também ainda não é possível garantir que concentrações tão altas de resveratrol não causem algum tipo de efeito adverso nas pessoas.

Algumas contradições ou questões em aberto também afloram quando se comparam os resultados dos dois estudos, cujas doses de resveratrol foram fornecidas pela Sirtris, empresa norte-americana que espera ganhar muito dinheiro um dia vendendo pílulas anti-envelhecimento à base do composto ou drogas baseadas nele. Sinclair, aliás, é um dos idealizadores da Sirtris, companhia que, ao lado da concorrente Elixir Pharmaceuticals, fundada por cientistas do Massachusetts Institute of Technology (MIT) e da Universidade da Califórnia, se dedica à pesquisa de drogas contra a senilidade baseadas no resveratrol e em outras moléculas. No artigo dos cientistas de Harvard, que contou com o apoio do Instituto Nacional do Envelhecimento dos Estados Unidos, o resveratrol não evitou que camundongos submetidos a uma dieta extremamente calórica, composta de 60% de gordura, ganhassem peso. Os animais se tornaram obesos –a exemplo de outros roedores que seguiram a mesma dieta da pesada mas não receberam doses de resveratrol – só que viraram animais gordos com uma saúde e expectativa de vida similares à de camundongos que seguem uma dieta balanceada. Em poucas palavras, o ingrediente do vinho não evita o acúmulo de gordura, mas neutralizaria ou reduziria os efeitos deletérios da obesidade.

No trabalho de Auwerx, o resveratrol parece evitar, pelo menos em parte, o ganho de gordura decorrente de uma alimentação rica em calorias, tendência não verificada no estudo de Sinclair. Em seu experimento, os camundongos que receberam as altas doses do composto e foram submetidos a um dieta extremamente calórica pesavam, depois de três semanas, 20% mais que os animais do grupo de controle, que seguiram uma dieta balanceada. Já os roedores que ingeriram a mesma dieta gordurosa, mas não ganharam sua cota diária de resveratrol, acumularam 60% mais peso que os bichos o grupo de controle. Pelo menos nas altíssimas dosagens de resveratrol usadas pela equipe francesa, 18 vezes mais elevadas que no trabalho dos norte-americanos, o ingrediente do vinho teria conseguido minorar o ganho de peso, além de melhorar o desempenho atlético. Esse feito se deveria à proeza de que o composto pode ter sido o responsável pelo aumento nos roedores da quantidade de mitocôndrias, organelas que geram energia queimando os açúcares do organismo. No futuro, se essas pesquisas se mostrarem corretas, o ser humano talvez consuma mais resveratrol na forma de pílulas que na de vinho. Se o médico for liberal, quem sabe ele receite os comprimidos do composto e mais um copinho diário de tinto.

*Esta matéria foi originalmente publicada na edição de novembro de 2006 do jornal Bon Vivant

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