Jornal do Vinho

“Tento buscar sempre as zonas mais frias para fazer vinhos mais elegantes e com mais acidez”

Afirma o espanhol José Manuel Ortega Gil-Fournier, um ex-financista que entrou no ramo vinícola apenas em 2001 e rapidamente virou uma referência

Marcos Pivetta/www.jornaldovinho.com.br

03/09/2009
Fournier
José Manuel Ortega Gil-Fournier: “Talvez a falta de experiência no mundo do vinho pode ter sido compensada com ideias mais claras, mais limpas e objetivas” (Foto: Gladstone Campos/Realphotos)

O espanhol José Manuel Ortega Gil-Fournier, é proprietário da vinícola O. Fournier, baseada no Vale do Uco, em Mendoza (Argentina), e também produz vinhos em Ribera de Duero (Espanha) e mais recentemente no Vale do Maule (Chile). Segue trechos da entrevista que ele me concedeu durante evento da importadora Vinci em maio passado.

Por que você resolveu fazer vinhos nesses três países?

Pensamos que eram as três zonas de mais potencial futuro em termos de qualidade e de desenvolvimento comercial. Acho que estamos demonstrando isso. Argentina, Espanha e Chile estão fazendo vinhos de qualidade cada vez melhor e são grandes exportadores de vinho.

Como você diferenciaria seus vinhos feitos na Argentina, na Espanha e no Chile?

São vinhos muito distintos. Cada vez que entramos em um país buscamos os melhores terroirs, a climatologia e o solo são muito importantes. Os vinhos argentinos vêm de um clima um pouco mais quente, embora ainda frio. São vinhos de mais estrutura, mais potência e exuberância. E têm um pouco menos de acidez. Os vinhos da Ribera del Duero vêm da zona mais fria da Espanha. São vinhos mais elegantes, refinados. Eles também têm estrutura, mas têm muita elegância. Os vinhos do Chile estariam numa situação intermediária entre a Espanha e a Argentina. Têm um pouco mais de aromas que os espanhóis e muito mais elegância que os argentinos. Tem uma acidez mais marcada pela região, pelo Vale do Maule. Ali a diferença térmica é impressionante. Faz 35°C de dia e 8°C à noite. A região dá uma boa madurez e uma acidez incrível. Estamos surpreendo muito a crítica e os consumidores com os nossos vinhos chilenos, porque eles não se parecem com os típicos vinhos chilenos. São mais frescos, com menos álcool.

Você pensa em fazer vinhos em mais países?

Bem, sonhar não custa. Agora estamos muito centrados em desenvolver o projeto no Chile, em plantar e construir a nova bodega. Mas há alguns lugares que podem nos interessar no futuro, como o Douro, em Portugal, e a Califórnia e o estado de Washington, nos Estados Unidos.  Tento buscar sempre as zonas mais frias dessas regiões. Em primeiro lugar, porque assim podemos fazer vinhos mais elegantes, com mais acidez. E, em segundo, porque essa política funciona com uma reserva de segurança para as mudanças climáticas.  Se você está numa zona fria e a temperatura aumenta uns 3°C, ainda é possível fazer vinhos de boa qualidade. Mas, se você já está numa zona medianamente quente, um aumento de 3°C fará com que produza vinhos de baixa qualidade. A gente espera que isso não aconteça. Mas, se vier a acontecer, estaremos em melhores condições do que outras vinícolas.

Você obteve um reconhecimento muito rápido da crítica especializada. Como analisa o seu sucesso?

Há várias razões para isso. É preciso escolher países com bom potencial vinícola e as zonas corretas de produção. Tinha isso claro desde o início. Preferi zonas com vinhedos velhos, com solos pobres.

Mas isso todo mundo já sabe, não é verdade?

Sim.

O fato de você vir de outra área, do mercado financeiro, sem estar atrelado a um passado vinícola, a uma tradição, não pode ter sido também uma vantagem?

Pode ter sido um ponto positivo. Talvez a falta de experiência no mundo do vinho pode ter sido compensada com ideias mais claras, mais limpas e objetivas. O que fizemos foi contratar técnicos muito competentes, enólogos e agrônomos que sabem do que falam e fazem. E também trabalhamos muito e temos muito entusiasmo pelos projetos. Acho que essas são as três condições. É verdade. todo mundo sabe disso. Mas vou dar o exemplo do Chile. Estamos no Vale do Maule, onde praticamente não há ninguém. Daqui a 5 anos esse vale será o melhor lugar do Chile para vinhos de qualidade. Muitas vinícolas chilenas poderiam ter pensado nisso, poderiam ter descoberto o lugar. Poderiam, mas não pensaram nisso. O mesmo aconteceu no Vale do Uco, em Mendoza. Quando nos instalamos lá, o lugar era pouco conhecido mesmo em Mendoza. Hoje é a melhor zona da região para vinhos de qualidade.  É preciso buscar o que se quer e ter paciência. Estamos muito agradecidos à imprensa que nos apoiou muito e tão rápido. Quando alguém tenta fazer vinhos com alma, caráter, pureza e que não são comerciais, as pessoas agradecem.

O que é mais difícil: fazer vinhos top, como os Alfa Crux e os O. Fournier, ou de boa relação qualidade-preço, como a linha Urban (feita na Argentina, Espanha e Chile)?

Boa pergunta. Na Espanha, fazemos umas 100 mil garrafas de Urban Ribera, mais ou menos umas 100 mil de Urban no Chile e umas 600 mil na Argentina. Mas, para mim, esses não são os vinhos mais difíceis de fazer. Os mais difíceis de fazer são os vinhos de gama média, como os B Crux (Argentina), Spiga (Espanha) e Centauri (Chile). São também vinhos elaborados em certa quantidade, de 100 mil ou 150 mil garrafas, mas com uma qualidade excepcional. Também é complicado elaborar os vinhos de gama alta, como os O. Fournier de Ribera de Bueno, que já recebeu altas notas da imprensa especializada. Mas, no caso dos vinhos tops, a gente sabe qual é a melhor barrica a ser usada, qual é o melhor lugar para a uva. Uma das poucas bodegas que podem fazer grandes vinhos em grande quantidade é a Vega Sicilia (a mais renomada vinícola da Espanha). Mas isso não está à mão de todos.

O que representa o mercado brasileiro para o O. Fournier?

Brasil é hoje o quarto maior mercado para nossos vinhos, atrás de Estados Unidos, Suíça e Alemanha. Estamos tentanto promover mais os vinhos espanhóis que são muito bons, mas estão ficando para trás dos argentinos. A venda dos nossos vinhos chilenos está apenas começando e as pessoas ainda têm que entendê-los. Mas a recepção tem sido boa da imprensa e dos compradores. Desde o princípio, tivemos a sorte de ter uma imagem muito boa aqui. Mas isso não acontece da noite para o dia. Venho ao Brasil quatro ou cinco vezes ao ano.  Nos mercado mais imporantes, faço eu mesmo o trabalho de promoção. Acho que isso mostra o valor que damos a esses países.

A crise mundial afetou suas vendas?

Surpreendentemente estamos vendendo mais. Mas a filosofia da O. Fournier, desde o primeiro dia, é value for money, qualidade e valor por bom preços. Antes, as pessoas podiam pagar 300 ou 400 dólares por um vinho. Agora querem esse mesmo prazer, mas pagando 80 dólares. Em todas as gamas, estamos vendendo mais do que antes. Antes havia quem só queria vinho francês. Agora estão experimentando vinhos argentinos, chilenos e espanhóis de alta gama. A crise sempre prejudica. Mas, neste ano, estamos multiplicando por três as vendas em Vale do Uco, só até maio. Da produção do Chile, ainda vendemos pouco. Mas estamos nos esforçando e trabalhando muito para crescer. Passo 150 dias do ano fora de casa.

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