Jornal do Vinho

A nova ecologia dos tintos e brancos

Com mais e melhores produtores, os vinhos orgânicos e biodinâmicos conquistam consumidores e se firmam no mercado

Marcos Pivetta/www.jornaldovinho.com.br*

27/04/2008

Nicolas Joly: feira e livro no Brasil para divulgar os vinhos biodinâmicos (Foto: divulgação)

Até algumas décadas atrás, a expressão vinho orgânico estava geralmente associada a três idéias nada animadoras: amadorismo, qualidade sofrível e custos elevados. Mas, a partir dos anos 1980, a antiga imagem negativa desse tipo de vinho – elaborado com uvas cultivadas em vinhedos teoricamente livres de produtos químicos feitos pelo homem, sem contato com organismos geneticamente modificados, e engarrafado com pouca ou nenhuma adição de conservantes, como o dióxido de enxofre (S02) – começou a ser lentamente revista, primeiro na França e posteriormente em outras regiões. Hoje, numa sociedade globalizada que se preocupa cada vez mais com a sustentabilidade das atividades econômicas e valoriza tudo que lhe é vendido como “verde” ou “natural”, esse filão minoritário, mas de ponta, da vitivinicultura mundial passou a ser levado a sério. Mais do que isso: o vinho orgânico é agora admirado por uma elite de consumidores, que dita modas e estabelece tendências, e conta com uma invejável legião de produtores de primeiríssima linha.

A recente conversão total do Domaine de La Romanée-Conti (DRC), uma mítica propriedade de cerca de 25 hectares situada na Borgonha, aos preceitos da biodinâmica, uma vertente mais radical e mística do cultivo orgânico, talvez seja um marco no processo de afirmação de vinhos mais ecológicos. Apesar de não compreender totalmente como a biodinâmica atua sobre as características de seus cobiçados rótulos, Aubert de Villaine, gerente e co-proprietário do DRC, se rendeu à nova forma de cultivo, inspirada nas idéias formuladas para a agricultura em geral na década de 1920 pelo filósofo austríaco Rudolf Steiner (1861-1925). A mudança se deu mais por motivos práticos do que filosóficos, segundo reportagem publicada recentemente no site da crítica inglesa Jancis Robinson. Villaine disse que era muito complicado manter dois sistemas na propriedade, que já era orgânica, e resolveu transformar em biodinâmicos todos os seus parreirais.

Para os seguidores das teorias de Steiner, que desafiam o pensar mais científico, o vinhedo é um organismo vivo que deve ser mantido de uma maneira auto-sustentável. No fundo, esses viticultores não abraçam só um sistema de produção agrícola, mas todo um modo de vida, um jeito de pensar, no qual grande parte dos esforços se volta para a prevenção – e não para a cura (com compostos sintéticos) – das doenças que afetam as parreiras. A formulação de preparados exóticos – como esterco bovino fermentado num chifre de vaca que é enterrado no solo em pleno inverno ou ainda sílica misturada com água da chuva dentro de um chifre de vaca, que é soterrado na primavera e desenterrado no outono – é um dos diferenciais dos biodinâmicos em relação à produção convencional e aos orgânicos em geral. O conteúdo desses preparados é diluído e energizado ou ativado por um processo denominado dinamização, que lembra procedimentos da homeopatia, e depois é aplicado no solo ou nos vinhedos na forma de composto ou spray de acordo com os ciclos da lua e de outros objetos cósmicos. Em geral, o solo dos vinhedos biodinâmicos (e orgânicos) parece possuir uma maior biodiversidade de organismos vivos do que o dos parreirais convencionais. Há até uns poucos estudos científicos confirmando isso.

A onda dos vinhos ditos ecológicos também chegou com força ao mercado brasileiro. Os catálogos e as ações de marketing das importadoras reservam agora um bom espaço para destacar produtos e produtores orgânicos ou biodinâmicos. Desde o final do ano passado, a Expand, por exemplo, passou a importar os vinhos do Domaine Cazes, dono de cerca de 160 hectares de vinhedos situados no Languedoc-Roussillon, sul da França, cultivados de forma biodinâmica desde 1997. Ao lado da Maison Michel Chapoutier no Vale do Rhône, Cazes é o produtor que tem provavelmente a maior área de uva plantada na França de acordo com os postulados defendidos pelos seguidores de Steiner. Em março, a mesma Expand trouxe para degustações no país Leonard Humbrecht, do Domaine Zind-Humbrecht, frequentemente apontado como o melhor produtor da Alsácia. Adivinhe de que forma são cultivados os seus parreirais de Riesling, Gewurztraminer e Pinot Gris? Claro, com a biodinâmica. Assim como os vinhedos dos renomados domaines Marcel Deiss e Josmeyer, para ficar em só mais dois exemplos da Alsácia, onde esse tipo de viticultura alternativa pegou para valer.

Não é fácil entender por completo o mundo dos orgânicos e, em especial, o dos biodinâmicos, onde há divisões e querelas internas que vão muito além dos questionamentos comuns que seus seguidores fazem à vitivinicultura tradicional, mais tecnológica e “química”. Em princípio, todo produtor biodinâmico é também orgânico, mas nem todo orgânico é biodinâmico. Há biodinâmicos que aceitam alguns procedimentos propostos por Steiner, mas não todos. Há também diversas empresas certificadoras no mundo habilitadas a atestar que um sistema de cultivo é orgânico ou biodinâmico, o que, por vezes, cria alguma controvérsia. E existe ainda quem diga que faz “vinhos naturais” (seja lá exatamente o que isso quer dizer em vez de simplesmente orgânicos ou biodinâmicos.

Esse é o caso dos produtores franceses Philippe Pacalet e Marcel Lapierre, respectivamente sobrinho e tio, que elaboram vinhos na Borgonha e no Beaujoulais. “Não adianta produzir uvas orgânicas ou biodinâmicas no vinhedo e usar química na hora de fazer o vinho na vinícola”, diz Lapierre, que esteve em São Paulo em março a convite da importadora World Wine/La Pastina, representante de seus rótulos. “Faço vinhos de terroir, da mesma maneira que meu pai e meu avô.” Lapierre, que cultiva organicamente seus vinhedos, não usa SO2 como conservante e não filtra seus vinhos. E fermenta a cepa tinta Gamay sem retirar as uvas dos cachos. Seu Morgon 2005, apesar de caro (R$ 120,00), é bem superior aos tintos normalmente ligeiros que costumam ser elaborados com a Gamay. Por fazer “vinhos naturais”, que demandam muito investimento em mão-de-obra, Lapierre diz que seus custos de produção são 30% maiores do que numa propriedade não-orgânica.

Feira de vinhos biodinâmicos – Quem quiser ter uma noção de parte da produção biodinâmica atual terá uma boa chance no final deste mês em São Paulo. No dia 29 de abril, haverá no Buffet Torres a 1ª Feira de Vinhos Biodinâmicos – Renaissance des Appelations, em que os profissionais do setor e os consumidores (por R$ 200,00) poderão provar cerca de 150 rótulos de 40 vinícolas. A maior parte dos produtores vem da França, mas haverá vinícolas da Itália, Espanha, Austrália Áustria, Portugal e Chile (do país sul-americano saem, por sinal, alguns orgânicos simples e com preços mais acessíveis, como os da Viñedos Emiliana e a linha Bicicleta Viña Cono Sur). O produtor Nicolas Joly, dono da famosa propriedade Coulée de Serrant na região de Savennières, no Vale do Loire, será a estrela do evento. Grande divulgador das idéias da biodinâmica, Joly vai lançar na feira a edição em português de seu livro “Vinho – Do Céu à Terra”. O encontro será uma prova de fogo para os biodinâmicos, pois o evento acontece no meio da Expovinis 2008, a maior feira de vinhos do país, que neste ano será realizada entre 28 e 30 de abril no Hotel Transamérica, também na capital paulista.

A ascensão dos orgânicos e biodinâmicos coloca na ordem do dia questões para as quais não há respostas fáceis. Os vinhos feitos dessa maneira seriam necessariamente melhores ou diferentes dos elaborados de forma mais convencional? Seriam os biodinâmicos a mais pura expressão de um terroir, aquela palavrinha francesa que associa as características de um tinto ou de um branco ao clima, ao solo, ao método de produção específicos de um lugar? Seriam esses rótulos mais saudáveis do que os vinhos tradicionais? Numa degustação às cegas, é possível distinguir um produto orgânico ou um biodinâmico de um vinho convencional?

Para Ciro Lilla, dono de duas importadoras de vinhos, a Mistral e a Vinci, em cujos catálogos não faltam rótulos orgânicos e biodinâmicos, como os elaborados pelos já citados Deiss e Chapoutier, os bons produtores estão procurando formas mais ecológicas e sustentáveis de tocar o seu negócio. Ele diz que essa busca por meios mais saudáveis e limpos de produzir uva e elaborar vinhos se dissemina no setor independentemente de o proprietário da vinícola se filiar a uma ou outra corrente agrícola. No entanto, ele admite. “Não acredito que seja possível diferenciar, às cegas, um vinho orgânico de outro convencional do mesmo nível”, afirma Lilla. O pesquisador Mauro Zanus, da Embrapa Uva e Vinho, de Bento Gonçalves, tem opinião semelhante. “Não acho que sensorialmente dê para distinguir um vinho orgânico de um convencional”, diz Zanus, que também é diretor de degustação da Associação Brasileira de Enologia (ABE). “Antigamente, os vinhos orgânicos tinham mais defeitos aparentes, como acidez volátil, mas hoje eles podem ser muito bons.”

O enólogo Luís Henrique Zanini, da vinícola Vallontano, do Vale dos Vinhedos, em Bento Gonçalves, passou três meses do ano passado na Borgonha, onde teve muito contato com produtores orgânicos e biodinâmicos. “Achei interessante o processo de produção dos biodinâmicos. Há muito trabalho humano manual envolvido nas propriedades que adotam esse sistema”, comenta Zanini. “Mas não se pode optar por esse caminho apenas por uma questão de marketing ou para justificar preços muito elevados. É preciso bom senso.” Na Vallontano, Zanini diz adotar um sistema de produção integrada, em que tenta diminuir o uso de produtos químicos sintéticos nos vinhedos.

Orgânicos brasileiros – Com um clima quente e úmido, que favorece a ocorrência de doenças e podridões, a Serra Gaúcha, principal região vitivinícola nacional, está longe de ser uma boa candidata a abrigar vinhedos orgânicos. Talvez por isso a vinícola Velho do Museu – Juan Carrau, de Caxias do Sul, tenha optado por produzir uma linha orgânica com uvas plantadas em Cerro do Chapéu, em Santana do Livramento, na divisão com o Uruguai, onde chove menos durante os meses da colheita. O Cabernet Sauvignon Juan Carrau Orgânico 1997 costuma ser descrito como o primeiro vinho nacional produzido dentro desse sistema de cultivo biológico. Hoje a empresa, cujos rótulos orgânicos são certificados pelo Instituto Biodinâmico de Botucatu, no interior paulista, elabora ainda dois brancos orgânicos, um Gewürztraminer e um Semillon, além do Cabernet. O professor Juan Luis Carrau-Bonomi, um uruguaio radicado há décadas no Brasil que dá aulas de Biotecnologia na Universidade de Caxias do Sul (UCS), é o dono da Velho do Museu e o enólogo responsável pelos vinhos da casa. Nos vinhedos de La Mañana em Santana do Livramento, que fornece a fruta usada na linha orgânica, é usada a chamada adubação verde, realizada por meio do cultivo de gramíneas e leguminosas entre as fileiras de parreiras, em vez do emprego de produtos químicos. Húmus de minhoca e biofertilizantes também são utilizados e, no lugar de herbicidas e fungicidas, os Carrau recorrem a adubos foliares, melaço e à calda bordalesa.

Aliás, a calda bordalesa – tradicional mistura de sulfato de cobre, cal e água, usada para combater doenças causadas por fungos, sobretudo o míldio, e em menor escala por bactérias – é o único defensivo convencional permitido na agricultura orgânica e biodinâmica. “Podemos usá-la até 40 dias antes da colheita”, diz o enólogo e sommelier Maiquel Vignatti, que cuida do marketing da Cooperativa Garibaldi, de Garibaldi, na Serra Gaúcha. Desde 2001, a empresa comercializa uma linha orgânica, a Vinho da Casa, feita com uvas comuns, não-viníferas, provenientes de 20 das 299 famílias de produtores associadas à cooperativa. Naquele ano, elaborou 2 950 garrafas de vinho comum orgânico. Em 2008, esse segmento deve chegar a 180 mil garrafas e continuar crescendo. Como se vê, até no nível mais elementar do mercado nacional de vinhos há espaço para produtos com o chamariz ecológico.

Certificada desde 2003 pela Ecocert Brasil, de Santa Catarina, a linha orgânica da Garibaldi é composta de um tinto (blend de Bordô e Isabel), um branco (varietal de Lorena, cepa híbrida desenvolvida pela Embrapa Uva e Vinho) e um espumante do tipo Asti (também feito de Lorena), além de suco de uva. “Os produtos orgânicos têm um grande apelo comercial e são ótimos para a saúde do consumidor”, afirma Vignatti. Por não usarem conservantes, os vinhos orgânicos duram um pouco menos do que os seus rótulos tradicionais, diz o enólogo da Garibaldi. Devido ao seu maior custo de elaboração, os produtos da linha Vinho da Casa, vendidos entre R$ 6 e R$ 7, são cerca de 20% mais caros do que os similares da Garibaldi não-orgânicos. A empresa também faz vinhos de uvas viníferas na Serra Gaúcha, mas não pensa em adotar o cultivo orgânico em seus parreirais de Merlot, Cabernet Sauvignon e Chardonnay. Segundo Vignatti, praticar uma agricultura sem recorrer a produtos químicos deixaria as cepas nobres excessivamente à mercê das doenças. Mais robustas, as uvas comuns, como se sabe, são menos suscetíveis a enfermidades.

*Esta matéria foi originalmente publicada na edição de abril de 2008 do jornal Bon Vivant

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