Jornal do Vinho

Mais leves e frescos

Impulsionados pela ascensão de cepas como a Riesling e a Pinot Grigio, os brancos tentam reconquistar seu espaço

Marcos Pivetta/www.jornaldovinho.com.br*

05/02/2008

Talvez ainda seja cedo para desarrolhar um Torrontés argentino, um Pinot Grigio italiano, um Grüner Veltliner austríaco ou um Alvarinho português e comemorar, mas há fortes sinais de que os vinhos brancos, ainda vistos por muita gente como irmãos menores dos tintos, começam a ser novamente valorizados pelo consumidor médio. E não se está falando de uma revitalização da imagem das ubíquas Chardonnay e Sauvignon Blanc, variedades de origem francesa que já conseguiram um lugar cativo no copo das pessoas, aqui e no exterior. No terreno dos brancos, o maior fenômeno é o interesse crescente por cepas brancas pouco conhecidas fora dos círculos dos entendidos, como as citadas acima e algumas outras. Com exceção da Riesling, a grande uva alemã, que é a cepa branca cujo consumo mais cresce nos Estados Unidos e está reconquistando uma fatia expressiva de adeptos em vários mercados internacionais, não dá para falar em um boom planetário na procura por brancos em geral. Mas pode-se dizer sem medo de errar – basta olhar para os catálogos das importadoras e também para a lista de vinhos que algumas vinícolas nacionais estão produzindo – que o brasileiro, a exemplo de outros povos, está se tornando cada vez mais infiel à dupla Chardonnay/Sauvignon Blanc e quer experimentar novos sabores em matéria de brancos.

Em terras nacionais, trata-se de um fenômeno que ainda não rende grandes números, visto que o consumo de brancos aqui ainda é bem menor do que o de tintos. Segundo Guilherme Corrêa, sommelier da importadora Decanter, a procura por brancos normalmente cresce de 30% a 40% no verão em relação a outras épocas do ano. Mas, além do fator sazonal, que normalmente infla as vendas desse produto na estação mais quente do ano, Corrêa sente que nos últimos tempos os brancos têm conquistado mais espaço na preferência do consumidor de uma forma geral. “Diria que hoje vendemos 75% de tintos e 25% de brancos na Decanter. Há 10 anos a parte que cabia aos brancos era bem menor do que isso”, diz o sommelier. Corrêa lembra que os Chardonnay, especialmente os do Novo Mundo (em geral amadeirados, untuosos e, em alguns casos, com certa doçura), já reinaram praticamente sozinhos nesse mercado num passado não muito distante. Hoje, os Sauvignon Blanc, vinhos mais frescos e leves, normalmente sem passagem em madeira, embora haja cada vez mais exemplares com estágio em carvalho, dividem a liderança no segmento. O que, entretanto, chama a atenção é a maior curiosidade por brancos de diferentes cepas e proveniências. “As pessoas, sobretudo nos mercados mais maduros do país, como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, querem experimentar um Verdicchio, um Vernaccia ou um Falanghina da Itália ou um Alvarinho português”, comenta Corrêa. Entre os vinhos brancos mais vendidos pela Decanter, destacam-se, por exemplo, o Alvarinho Muros Antigos 2004, do produtor Anselmo Mendes (R$ 79, 30), o Vernnacia di San Gimignano, do produtor Cesani (R$ 56,4), e o Riesling Mort’s Block, do produtor australiano Kilikanoon (R$ 120,00).

Otavio Lilla, diretor de duas importadoras de sua família (Mistral e Vinci), também acha que a procura por brancos dá, finalmente, sinais de aumento e diversificação em algumas partes do Brasil. “Há anos, a gente tenta estimular o consumo de brancos, mas não via resultado”, comenta Lilla. “No ano passado, com a volta dos rosés, os brancos parecem ter ganho novo interesse.” Fazendo coro a Corrêa, Lilla diz que hoje é mais fácil vender brancos nas grandes capitais do Sudeste, mas que no Nordeste, apesar do clima propício para o consumo de bebidas mais leves e frescas, a preferência por tintos ainda é avassaladora. Entre os rótulos fora do eixo Chardonnay/Sauvignon Blanc que estão saindo bem neste verão, ele cita os brancos da Alsácia e alguns do Loire (nesse último caso, feitos com as uvas Chenin Blanc ou a Muscadet) e até um branco seco elaborado com a cepa Furmint, o húngaro Tokaji Mandolás 05 (US 39,90, na Mistral). Além, é claro, dos Riesling da Alemanha e também da Áustria, país cujos brancos mais peculiares vêm da cepa local Grüner Veltliner. Uma introdução não muito cara ao mundo dos Riesling – a melhor cepa branca, na opinião de Jancis Robinson, a grande crítica e escritora de vinhos da Inglaterra – é a linha do produtor alemão Selbach-Oster. Seus rótulos, que contam com vinhos secos, meio-secos e doces, custam entre US$ 20 e US$ 55 na Vinci.

Outras grandes importadoras também registram um aquecimento nas vendas de vinhos brancos até recentemente menos badalados ou conhecidos. Segundo Eduardo Lopes, sommelier da World Wine/La Pastina, existe realmente um movimento dos consumidores em buscas de uvas brancas não-convencionais, como a argentina Torrontés, as espanholhas Viura e Verdejo, e francesa Viognier. Ele acredita que essa tendência é alavancada por curiosos que querem fugir da mesmice. Entre os consumidores mais experientes, Lopes afirma que há uma boa procura por vinhos menos “mascarados” pela madeira, que expressem mais as características das uvas com que foram elaborados. Nesse contexto, os Riesling, que em geral não envelhecem em carvalho, ganham espaço e mesmo os Chardonnays sem madeira. A assessoria de imprensa da Expand, a maior importadora do país, também informa que a procura por vinhos sem madeira aumentou muito neste verão. Mais uma vez os Rieslings, brancos italianos e sul-africanos estão em os rótulos mais procurados. Os Chablis, brancos austeros com toques minerais feitos na Borgonha com a Chardonnay, também estão em alta na importadora.

A dura vida do branco nacional – Entre as vinícolas brasileiras, que atualmente estão muito mais focadas nos tintos e espumantes, a onda branca ainda não se faz sentir em muitos casos. Hoje, de cada três garrafas de vinho fino tranqüilo, não-espumante, vendido por vinícolas gaúchas (que representam cerca de 90% da produção nacional) apenas uma é de branco e duas são de tinto. Uma mudança e tanto, visto que, em 2001, essas empresas comercializavam um pouco mais de vinho branco fino do que de tinto. De lá para cá, a venda de brancos nacionais de uvas viníferas reduziu-se para menos da metade enquanto a de tintos subiu mais de 60%. Não é de se estranhar, portanto, que algumas vinícolas, como a Salton, não sentiram por enquanto mudança alguma na procura por seus brancos.

Em outras empresas, alguns ventos, os primeiros a se fazer sentir, parecem soprar a favor dos brancos. O enólogo Adriano Miolo, diretor-técnico da Miolo, dá uma radiografia do que ocorre em sua vinícola. “Aparentemente, as vendas de brancos pararam de cair, se estabilizaram e começam a dar sinais de que vão crescer”, diz Miolo. Ele, no entanto, afirma que o redescobrimento desse tipo de vinho está em estágio mais avançado no exterior do que aqui. Um exemplo dessa situação: das cerca de 150 mil unidades elaboradas anualmente do seu Chardonnay Reserva, pouco mais da metade foram exportadas. O restante foi comercializado no mercado interno. “Nosso Pinot Grigio da linha Fortaleza do Seival (feito na Campanha Gaúcha, perto da fronteira com o Uruguai), também está sendo bem aceito lá fora e aqui. Há uma tendência de, depois da volta dos rosés, em se apostar em brancos mais frutados e frescos”, comenta Miolo. Hoje os brancos representam apenas 15% do total de vinhos comercializado pela empresa. Mas Miolo afirma que das novas regiões vinícolas do Brasil sairão brancos nacionais de novas castas, como rótulos de Chenin Blanc e Verdejo no Nordeste e Viognier na Campanha Gaúcha.

Quando se fala numa renascença global do gosto pelos brancos, tem-se a sensação de que os vinhos dessa cor tinham quase desaparecido dos principais mercados internacionais nos últimos anos, engolidos pelo fascínio do consumidor moderno por tintos encorpados e alcoólicos. Tintos que, segundo uma série de estudos publicados a partir dos anos 1990, podem até fazer bem à saúde se consumidos com moderação. A impressão, no entanto, é errada. O ostracismo beirou a vida dos rosés, que, em um dado momento, se tornaram um produto tão ruim e de má fama que era difícil até de se encontrar algum representante da categoria nas prateleiras dos supermercados e lojas mundo afora. Os brancos nunca se tornaram vinhos marginais, como os rosados. Apenas passaram a ocupar um espaço mais discreto do que antes diante da ascensão dos irmãos de cor mais avermelhada. Ainda assim, entre os conhecedores, sobretudo os mais abonados e informados, um grande Borgonha branco, um Riesling alemão de nobre estirpe ou um Sauternes de boa safra (que é um branco doce da região de Bordeaux) nunca saíram de moda. Hoje muita gente ignora que cerca de 40% dos vinhos tranqüilos do mundo ainda são brancos. Em alguns mercados extremamente competitivos, como o Reino Unido e a Alemanha, eles são mais consumidos do que os tintos. Mesmo nos Estados Unidos, onde é enorme a influência do crítico Robert Parker, com seu gosto por tintos frutados e corpulentos, os brancos só perderam a liderança na taça do consumidor em 2004. Resta saber se o interesse atual por cepas como a Riesling ou a Pinot Grigio vai realmente elevar a fatia ocupada pelos vinhos brancos em geral nos mercados internacionais (e no Brasil) ou o aumento da popularidade dessas castas menos badaladas vai se dar à custa da perda de admiradores das suas rivais Chardonnay e Sauvignon Blanc.

Leia também a matéria Para fugir da dupla Chardonnay e Sauvignon Blanc

*Esta matéria foi originalmente publicada na edição de janeiro de 2008 do jornal Bon Vivant

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